Correio Urbano

INTRODUÇÃO

Este trabalho tem como escopo o histórico do desenvolvimento da estrutura logística dos Correios no Município Neutro imperial. Para efeito didático, dividi o trabalho em dois menus principais: este Correio Urbano, que descreve as iniciativas “dentro do perímetro urbano” e o seguinte Correio Rural que apresentará as iniciativas nos subúrbios, zona oeste e os limites ocidentais até Santa Cruz.

Relembro que o Ato de 24 de abril de 1798 é o início da organização dos Correios, com a instalação da Administração do Correio da Corte e da Província do Rio de Janeiro, ou seja, de sua primeira agencia postal. No Município Neutro, somente depois de mais 40 anos seriam criadas mais duas agencias em seus extremos: Paquetá (1841) e Santa Cruz (1842), ambas ainda ativas.

O decreto 255 de 29 de novembro de 1842 introduz o conceito de pagamento adiantado do porte da correspondência, através do uso de selo postal, que por sua vez será inutilizado por carimbo. O sistema sem dúvida simplificava muito a logística dos Correios e foi um marco importante para o estabelecimento do Correio Urbano.

Os decretos e referencias podem ser encontrados no menu História Postal.


O CORREIO URBANO NA CORTE (1844 – 1889)

Indice dos capítulos cobertos nesta página:
1. As caixas de correio
1.1 origens (1844)
1.2 correio urbano a cavalo (1852-61)
1.3 correio urbano a pé (1857-60)
2. As agencias urbanas ( “agencias de letras” 1868-80);
3. Os carimbos Correio Urbano (1883-97)
4. Os carimbos “Urbanos” (1887-94)
5. Republica (1890)

 

CAPÍTULO 1 – AS CAIXAS DE CORREIO

1.1 – Origens do serviço de Correio Urbano

Decreto Nº 399  de 21 de dezembro de 1844

A primeira referência à correspondência urbana ou “dentro da mesma Cidade” aparece no Regulamento de 1844 (1), informando que a correspondência será lançada em Caixas e pagará metade da tarifa de terra. Compromete-se o DG a ensaiar (Aurélio: pôr em prática, tentar, experimentar) um Correio Urbano na Corte. Transcrevo:

Art. 188. As pessoas que quizerem enviar cartas ou quaesquer maços ou papeis para dentro da mesma Cidade, Villa, ou Povoação, por intermedio do Correio, o poderão fazer lançando-os nas Caixas com o sello affixado, que será de metade do dos Correios de terra.

Art. 189. Os Administradores ou Agentes dos Correios logo que acharem nas respectivas caixas, cartas, papeis ou quaesquer maços para a mesma Povoação, com sellos na fórma acima ordenada, lhes darão o mesmo destino que ás recebidas pelas malas.

O Director Geral ensaiará quanto antes nesta Côrte hum Correio Urbano distribuindo malas ou caixas por diversos lugares para receber as cartas, e empregando os Carteiros d’Administração na entrega d’ellas.

Regulamento para o ensaio dos Correios Urbanos n’esta Corte (17 de julho de 1845)

Assinado pelo Diretor Geral dos Correios, esse Regulamento (2) tem nove artigos e faz referencia ao Art. 188 do Decreto acima citado. Transcrevo seu primeiro artigo, que descreve as primeiras Caixas de Correio implantadas na zona urbana:

Art. 1º  Do dia 11 de agosto próximo futuro em diante haverão trez caixas de correio urbano na corte, a primeira no largo da matriz da Gloria, a segunda no largo da Imperatriz e a terceira em Matta Porcos.

Fontes:
(1) Decreto 399, de 21 de Dezembro de 1844 – Coleção das Leis do Império do Brasil de 1844 – vol. 1 (p. 267, col. 1)
(2) Publicado no Diario do Rio de Janeiro, edição de 7 de agosto de 1845

1.2 – Correio Urbano a Cavalo

Regulamento para os Correios Urbanos (3 de maio de 1851)

O comunicado de 17 de fevereiro de 1852 assinado pelo Administrador do Correio Geral da Corte, José Maria Lopes da Costa (3) reza que (sic):

“Para conhecimento do pubblico se annuncia que, por Aviso da Secretaria de Estado dos Negócios do Império de 17 de janeiro findo, foi approvado o Regulamento de 3 de maio de 1851 (…) constando de quatro linhas nos principais extremos da cidade (…), em cujos pontos ficão estabelecidas caixas para o recebimento da correspondência (..)”.

Seguem os 23 artigos desse Regulamento, que vou tentar resumir. As quatro linhas serão:

  1. Jardim Botânico: Roteiro: ruas Direita, S. José, largo e rua da Ajuda, rua do Passeio, Largo da lapa, Gloria, Cattete, Caminho Novo, praia de Botafogo, rua de S. Clemente, Lagoa.
  2. Cosme Velho: Roteiro: ruas Direita e do Ouvidor, largo de S. Francisco de Paula, praça da Constituição, ruas do Lavradio e dos Arcos, rua das Mangueiras, largo da Lapa, Cattete, Largo do Machado, rua das Larangeiras e Cosme Velho (próximo a Água Férrea).
  3. Andaraí: Roteiro: ruas Direita e da Alfandega, campo da Aclamação, rua Nova do Conde, Catumbi Pequeno (próximo ao Chafariz do Lagarto), Barro Vermelho, Matta Porcos, Engenho Velho (próximo a rua de São Francisco) no lugar denominado Affonso.
  4. Praia Pequena: rua Direita, rua de S. Pedro, Campo da Aclamação, rua de S. Pedro da Cidade Nova, Atterrado, rua e campo de S. Christovão, Pedregulho, Bemfica e Praia Pequena.

Para dar uma ideia da abrangência do serviço copio um mapa da cidade em 1902 (fonte: Lybrary of Congress), onde as áreas urbanas estão coloridas em laranja e os 4 roteiros assinalados pelo autor em vermelho:

A edição do Diario do Rio de Janeiro de 20 de abril de 1852 traz matéria sobre o movimento inicial da correspondência

Esse movimento cresceria para mais de 3.000 cartas mensais nos anos seguintes, conforme se lê em matéria de 1º de agosto de 1856 no mesmo Diário:

 

Extinção do serviço em setembro de 1861

O serviço seria extinto pelo aviso n.47 da 4a. directoria do Ministerio dos negocios da agricultura, commercio e obras publicas, datado de 9 de setembro de 1861 e endereçado ao Administrador do correio da corte e provincia do Rio de Janeiro, Dr. Thomaz José Pinto Serqueira, cujos principais trechos reproduzo abaixo (4):

“Não correspondendo de modo nenhum a vantagem que se tira dos carteiros a cavallo e convindo por isso organizar de outra maneira aquelle serviço, fica V.S. autorizado a: 1) supprimir os referidos carteiros urbanos; 2) ordenar que todos os dias de manhã  partão dous carteiros a pé, um para o ponto do Cattete e outro para o de Mattaporcos (…)”.

O aviso prossegue detalhando como outros carteiros darão seguimento, cobrindo os diversos trechos de modo a manter o serviço nas quatro linhas em questão.

Fontes:
(3) Diario do Rio de Janeiro, edição de 19 de fevereiro de 1852
(4) Correio Mercantil, edição de 16 de setembro de 1861

1.3) Correio urbano a pé em 24 de março de 1857

Declaração da Administração do Correio da Corte assinada em 21 de março de 1857 pelo contador substituto Sr. Francisco José de Lima Barros (5) tem o seguinte texto:

“(…) faço  publicar que no dia 24 do presente mez principiará o expediente das 32 caixas do Correio Urbano que já se achão estabelecidas (…) nos limites do correio urbano a pé cuja área fica dividida em 8 districtos pela maneira constante no regulamento dado pela DGC em 4 de março deste anno, em virtude do aviso da secretaria d’estado dos negocios do Imperio de 19 de janeiro ultimo (…)”.

Em anexo segue cópia do Regulamento citado intitulado “Instrucção do Correio Urbano”. A instrução fixava os limites geográficos da área coberta. Copio e comento o trecho original e mais abaixo apresento um mapa desses locais:

  1. Lado do Cattete até a ponte de mesmo nome (próximo à atual Praça José de Alencar no Flamengo)
  2. Lado da Cidade Nova até o Rocio Pequeno (nome antigo da Praça 11, desfigurada com a construção da Av. Presidente Vargas)
  3. Litoral até o caes de embarque no Sacco do Alferes (região da atual Gamboa que sofreu grande aterro na reforma do antigo cais do porto)

Consta a Instrução de 16 artigos, estabelecendo que o serviço será feito a pé por oito carteiros especiais na região delimitada acima, que será igualmente dividida em oito districtos, cujos roteiros detalhados são descritos no 3º artigo . Os carteiros visitarão as caixas e levarão as cartas para o correio central. Na volta, levarão as cartas já separadas para serem entregue a domicilio aos assinantes do Correio. As cartas provenientes de Niteroi, São Gonçalo, Paquetá, Estrella  e linha de Guaratiba também serão incluídas sempre que possível.

O artigo 13º informa que o porte continua o mesmo do decreto de 1844 e o 16º informa que os carteiros urbanos a cavalo continuarão a proceder do mesmo modo que atualmente (ver capítulo anterior).

Nota do autor: por pouco tempo, já que o serviço a cavalo também seria extinto no ano seguinte (ver capitulo 1.2)

Extinção do serviço em janeiro de 1860

No entanto, o serviço seria extinto segundo um comunicado do CGC de 30 de dezembro de 1859 e assinado por F.J. de Lima Barros “no impedimento do contador”, (6) que informa:

“De ordem do Illm. Sr. administrador faço publico que por avisos de secretaria de estado dos negocios do Imperio datados de hontem, segundo acaba de communicar a DGC em officio n.260 da mesma data, foi determinado que do próximo mes de janeiro em diante (…) cesse o serviço dos oito districtos do correio urbano cujas caixas vão ser levantadas das diversas ruas em que se achão, conservando-se somente a do Largo do Machado e a da estação central da estrada de ferro, as quaes serão visitadas duas vezes diariamente pelos carteiros a cavallo que transitão por esses lugares”.

Fontes:
(5) Diario do Rio de Janeiro, edição de 22 de março de 1857
(6) Correio Mercantil, edição de 5 de janeiro de 1860.

CAPITULO 2. AS AGENCIAS URBANAS

Conforme vimos no capítulo anterior, a partir de 1861 seria praticamente extinto o correio urbano organizado na forma prevista no decreto de 1844. Algumas caixas urbanas continuaram a existir sem, contudo, uma estrutura logística eficiente. Apenas em 1868 – mais de 25 anos depois da agencia de Paquetá – seriam criadas novas agencias urbanas dentro de uma nova estrutura.

Por outro lado, algumas agências começaram a ser instaladas nas estações ferroviárias da E.F. D. Pedro II, cujo primeiro trecho até Japeri foi inaugurado em 1858. Assim, dentro do município, as agências pioneiras foram Cascadura (1862), São Francisco Xavier (1864) e Engenho Novo (1865). Um moderno e poderoso meio logístico que ampliaria e agilizaria o serviço dos correios nas próximas décadas. Veremos mais detalhes no capítulo Correio Rural.

Uma nova tentativa em 1865

Uma medida contida no Decreto de 1865 (8) demonstra novo interesse na implantação de um novo Correio Urbano. Transcrevo trechos:

“CAPITULO IV – Distribuição da correspondencia
Art. 21. Para regular o serviço do correio urbano na Capital do Imperio, haverá pelo menos tres distribuições diarias da correspondencia levada ao domicilio dos destinatarios na distancia de cinco kilometros da repartição do Correio (…)
Art. 23 – A correspondência será levada ao domicílio do destinatário em todas as cidades, cuja população exceder a cinco mil almas”.

Uma das iniciativas decorrentes foi a implantação de agencias urbanas.

A primeira, Agência Rua Direita, sempre existiu como sede da Diretoria Geral. No entanto em 1865 começam a aparecer carimbos “Rio de Janeiro” ao invés de Correio Geral da Corte. Suponho que como reflexo de uma nova estrutura. Acompanhando a rua, ela seria renomeada Agência 1º de Março em 1870. Essa agência seria reinstalada no mesmo endereço no final de 1877 após a inauguração do novo edifício dos Correios, o primeiro a ser projetado especificamente para as necessidades postais.

A partir de 1868 começam a ser instaladas caixas de coleta em agências postais localizadas em pontos estratégicos da zona urbana do Município Neutro. O Almanaque Laemmert de 1869 lista as cinco primeiras implantadas em 1868:

N.A.: Vale notar que à época algumas agências já funcionavam nos subúrbios (ou “freguesias de fora” como referidas na época). As primeiras criadas foram as de Paquetá (16 de agosto de 1841) e a do Curato de Santa Cruz (24 de novembro de 1842). Com a inauguração da E.F. D. Pedro II, agencias ferroviárias foram criadas nas estações da linha dentro do município: Cascadura (12 de maio de 1862), São Francisco Xavier (10 de agosto de 1864), Sapopemba – atual Deodoro – e Engenho Novo (estas em 9 de agosto de 1865).

As 25 agências postais urbanas criadas entre 1868 e 1877 adotaram a identificação por letras, conforme apresentado na tabela a seguir, com as respectivas datas de funcionamento, conforme se vê na tabela abaixo:

Observações sobre a tabela:

  1. Fontes: Boletim Postal dos Correios, Almanaque Laemmert e notas publicadas pela Diretoria dos Correios na imprensa (Diario do Rio de Janeiro, Hemeroteca da Biblioteca Municipal do RJ).
  2. As datas da tabela são as publicadas na imprensa, onde textualmente se lê: “começa a funcionar a partir dessa data a agencia X”. Portanto, devem ser posteriores às informadas em documentos do Correio, geralmente datas de criação.
  3. Procurei listar todas as mudanças de nome das agencias registradas na documentação, embora reconheça que possa trazer certa confusão. As mudanças decorrem de mudanças de endereço  ou de alteração do nome do logradouro. Algumas são curiosas, como por exemplo as do Rio Comprido, que revelam, no vai-vem, uma certa indecisão politica.
  4. Observe que o conjunto de bairros atendidos reflete os limites conceituais de “zona urbana” à época. A expansão para a Zona Sul mostra a influencia da inauguração das linhas de bonde para Botafogo (1868), Jardim Botânico e Gávea (1871).
  5. A coluna MRJ indica o numero que atribuí a cada agencia ao longo deste trabalho. Elas estão classificadas em seu respectivo bairro, embora uma consolidação de todas as imagens disponíveis seja apresentada abaixo.

Essas agências utilizaram carimbos específicos, que Paulo Ayres classifica como carimbos de letras (PA 1022 e ss).

N.A.: vale lembrar que na República, a partir de 1890, foi criada uma rede de “Agências Urbanas” também identificadas pelas letras de “A” a “L”, embora sejam facilmente diferenciadas pelos carimbos circulares datadores que utilizaram. Essa iniciativa constituiu uma primeira tentativa de estabelecer uma rede de sucursais na região metropolitana. Informações completas estão no menu “SUCURSAIS”.

Tudo leva a crer que as agencias deixaram de utilizar esses carimbos por volta de 1880. O Almanaque Laemmert, que publicava a lista de caixas/agencias urbanas até 1880 no ano seguinte se refere somente a “70 caixas existentes”.

Imagens (9) dos carimbos das agencias urbanas

Fontes:
(7) Monografia “A consolidação do correio urbano na Corte: de 1860 a 1889” Por Paulo Comelli, agosto de 2006.
(8) Regulamento para o serviço dos correios do Imperio, aprovado pelo Decreto nº 3443 de 12 de Abril de 1865. Coleção de Leis do Império do Brasil – 1865, Página 71 Vol. 1 pt II
(9) Imagens: coleções do autor e  K.L. 

CAPITULO 3 – OS CARIMBOS “CORREIO URBANO”

Com o fim do uso de carimbos especiais pelas agencias urbanas, a correspondência postada nas caixas urbanas passam a receber carimbos de texto com a legenda CORREIO URBANO provavelmente aplicados na recepção do Correio Central. Dois tipos são conhecidos, um retangular circulado no Império (1883-89) e outro elíptico na Republica (1890-97).

Imagens de carimbos do Correio Urbano (coleção do autor)


CAPITULO 4. OS CARIMBOS “URBANOS”

Outra série de carimbos – que denominei “Tipo Urbano” – foram utilizados pelas “Secções” do Correio Central na transição entre o Imperio e a Republica. A alcunha deriva das legendas C.U. – Correio Urbano e P.U.- Posta Urbana grafadas nas duas ultimas séries. Como exemplo, um Bilhete Postal de 1892 (coleção do autor).

posta-urbana

Analisando a inscrição do quadrante superior do círculo interno e as respectivas datas de circulação, tomei a liberdade de classificá-los em três séries distintas.

  • 1a. série: quadrante com o florão ( ) na horizontal (1887-1890)
  • 2a. série: quadrante com as letras CU (1889-1890)
  • 3a. série: quadrante com as letras PU (1890-1894)

Observações:

  • Na 1a. série são usados turnos – manhã, tarde ou noite – ao invés das  1ª, 2ª ou 3ª turmas usados nos tipo CU e PU.
  • A 2a. série (CU) e a 3a. série (PU) só circularam na 1a. Secção.
  • Não encontrei exemplares da 2a. Secção em nenhum tipo.
  • O catalogo Paulo Ayres registra vários carimbos que não encontrei. No entanto, não registra o tipo PU (3a. serie), talvez por terem sido emitidos na Republica.

A tabela abaixo apresenta de forma consolidada os tipos que possuo e reserva linhas (em cinza) para os que possam existir. Já suas imagens estão apresentadas em cada uma das Secções do Correio Central que os utilizaram (ver menu Secções).

TIPO URBANO

As imagens estão apresentadas nas respectivas “secções”.

Observação: há carimbos com desenhos semelhantes que circularam em outras épocas ou locais. O menu carimbologia apresenta uma tabela completa. Ver http://agenciaspostais.com.br/?page_id=4778 

CAPITULO 5 – REPÚBLICA

Como vimos no capítulo 2, a estrutura formada pelas “agencias de letras” foi a última iniciativa do Império em organizar o correio urbano, tendo sido abandonada por volta de 1880. O alvorecer da República tentaria novamente abordar a questão a partir de 1890 com o estabelecimento de uma rede de agências de letras bastante similar à anterior, composta agora por 12 agencias. Este tema está fora do escopo deste capitulo e pode ser visto no menu “Sucursais do Distrito Federal”. Ver http://agenciaspostais.com.br/?page_id=3805

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