Correio Rural

INTRODUÇÃO AO CORREIO RURAL

Vimos no menu Correio Urbano as decorrências do Decreto de 1844 referente ao desenvolvimento desse serviço, que resultou no comunicado de 17 de fevereiro de 1852 assinado pelo Administrador do Correio Geral da Corte, estabelecendo as primeiras linhas do correio urbano na Corte. Esse assunto foi abordado no menu anterior “Correio Urbano” (clique para ver)

Nesta página, vamos explorar a expansão do correio urbano para o interior do Município Neutro no período imperial, região que era referida por “Freguesias de Fóra da Cidade” como se vê no titulo da seção do Almanaque Laemmert que servirá de guia para este artigo. Serão referidas por “Freguesias Suburbanas” no AL a partir de 1874.

Oito freguesias estão listadas, que tomarei a liberdade de dividir em dois grupos, as Suburbanas e as Rurais.

Grupo Suburbano (capitulo 1)

  • Senhor Bom Jesus do Monte da Ilha de Paquetá
  • São Thiago de Inhaúma
  • Nossa Senhora da Ajuda da Ilha do Governador
  • Nossa Senhora da Apresentação de Irajá

Grupo Rural (capítulo 2)

  • Nossa Senhora do Desterro do Campo Grande
  • São Salvador de Guaratiba
  • Nossa Senhora do Loreto de Jacarepaguá
  • Curato de Santa Cruz

 


CAPÍTULO 1 – LINHAS POSTAIS E AGENCIAS NOS SUBÚRBIOS – ZONA NORTE

 

Mapa Postal dos Subúrbios em 1888 (Hemeroteca da Biblioteca Nacional)

O mapa postal de 1888 resume o trabalho feito pelos Correios nos anos 1850 a 1870 em incluir as novas regiões urbanas que se desenvolviam nos subúrbios. Parte dessa expansão demográfica deve-se muito ao processo de construção de uma extensa rede ferroviária ligando a Corte à região suburbana, à baixada e aos municípios do interior do Estado. Muitas de suas estações receberam agências postais e formaram polos em volta dos quais muitos bairros surgiram. Exceções são as ilhas de Paquetá e do Governador, servidas por mar.

A linha cheia mais embaixo é a EF D. Pedro II, trecho construído entre 1858 e 1859. A segunda, que passa por Inhaúma e pela Pavuna, é a EF Rio d’Ouro construída em 1883 e a terceira, que passa por Irajá e Merity é a Linha do Norte construída em 1886.

Os números em vermelho que adicionei ao mapa mostram as agencias, descritas na tabela abaixo. No mapa original pode-se ver as “bandeirinhas” que identificam agencias e suas respectivas classes pelo numero de listas.

A planilha abaixo foi extraída do menu ferroviário e lista as agencias postais citadas no mapa postal de 1888 que estão localizadas junto às linhas.

Quanto às agencias do mapa que não são “ferroviárias”, as de nº1 e 10 estão em ilhas e seu acesso é por linhas marítimas. Campinho é um caso particular, pois fica em local próximo a Cascadura e foi um dos pontos de passagem do correio rural sobre o qual falaremos no próximo capítulo.

Campinho

“No cruzamento da Estrada Real de Santa Cruz (que são, atualmente, a Estrada Intendente Magalhães e a Rua Ernani Cardoso) com a Estrada de Jacarepaguá (atual Rua Cândido Benício) e a Estrada de Irajá (atual Rua Domingos Lopes), havia um local onde os viajantes descansavam, próximo a um campo onde havia uma feira de gado – o “Campinho”. No século XVIII, foi aberta uma hospedaria que Tiradentes frequentava, quando vinha ao Rio de Janeiro”

Essa posição logística privilegiada tornou o lugar importante ponto de passagem das linhas do correio para a Zona Oeste. Aliás, importância não só logística como estratégica, uma vez que no local foi construído em 1822 o Forte de Nossa Senhora da Glória do Campinho (hoje em ruínas).

Deodoro, antiga Sapopemba, vale ser mencionada pela sua importância como entroncamento ferroviário. Estação da E.F. D.Pedro II, de lá sairá o Ramal de Santa Cruz em 1878 (ligação com a Zona Oeste) e mais tarde na república a ligação com a Linha Auxiliar através do Ramal de Honório Gurgel. Sua agencia é de 1865.


 

CAPÍTULO 2 – LINHAS POSTAIS E AGENCIAS RURAIS – ZONA OESTE

Relembrando, das 8 “freguesias de fora” quatro estavam na zona rural:

Grupo Rural

  • Nossa Senhora do Desterro do Campo Grande
  • São Salvador de Guaratiba
  • Nossa Senhora do Loreto de Jacarepaguá
  • Curato de Santa Cruz

Como se lê no Almanaque Laemmert para 1954 (imagem a seguir), já em 1853 foi estabelecida uma linha de correio “communicando esta cidade com as freguezias de fóra mais distantes“. No caso, “desta Côrte por Jacarepaguá à Guaratiba e voltando por Campo Grande“. São mencionados nesse texto os locais de Campinho, Freguezia (Jacarepaguá), Rio Grande de Jacarepaguá, Baeté, Vargem Grande, Guaratiba, Caroba e Campo Grande e Taquara.

O Almanaque Laemmert anualmente atualizava os roteiros postais do correio rural. Assim, pude construir uma planilha que permite acompanhar cada ponto de passagem ao longo do tempo. As letras vermelhas representam o ponto no mapa postal e o preenchimento em cinza que ele estava no roteiro do ano. A data de criação de agencia  no local está representada pela letra A e o asterisco indica que a localidade está indicada no mapa postal dos Correios de 1888. Sabemos que os mapas postais são somente indicativos, mas para o meu objetivo foi o melhor que encontrei.

Mapa postal dos Correios de 1888

Como exemplo, a letra indica Campinho no canto superior direito do mapa, sendo que as convenções do mapa a classificam como povoação com agencia postal de 4a.classe.  Há três pontos ausentes no mapa: Ilha (h) e Ponto da Caroba (q) por suas agencias terem sido fechadas e Bangu (v) cuja agencia só foi criada em 1890. Mesmo assim eu nele acrescentei as três em suas presumidas localizações. Observem a marcação das linhas de correio entre elas, conforme as convenções.


IMAGENS

As imagens de carimbos das agencias postais de cada local estão é claro mostradas nas suas respectivas agencias e nos bairros em que estão localizadas. Lá também há mais detalhes e histórias sobre cada ponto.


UM POUCO DE HISTÓRIA

A integração da Zona Oeste tem seu marco com a Estrada de Santa Cruz, também conhecida por Caminho Imperial, que ligava o Paço de São Cristóvão à Fazenda Imperial de Santa Cruz. Coincidentemente, eu estava terminando de escrever a primeira versão deste capítulo quando O Globo publicou matéria sobre o tema na edição de domingo 16 de setembro de 2018, que reproduzo parcialmente abaixo (clique na imagem para ampliar).

Reportagem de Renan Rodrigues, mapa da Editoria de Arte


Agencias Ferroviárias

Achei que valia a pena também acrescentar uma visão ferroviária após a inauguração do Ramal de Santa Cruz em 1878.

 


CAPÍTULO 3 – SERVIÇOS URBANO E RURAL NO INICIO DA REPUBLICA

A primeira iniciativa da República em reformar e regulamentar os Correios foi o Decreto nº 368-A de 1º de Maio de 1890 que, em seu artigo 77, previa:

“Art. 77. A Directoria Geral providenciará, dando as instrucções necessarias, para que haja posta-rural nos logares que exigirem este serviço, e para o desenvolvimento do que já existe no municipio federal”.

Já o Relatório dos Correios publicado em 1891, na descrição das atribuições da 4a. Secção, informa que em atenção ao citado Artigo 77 publica um conjunto de instruções sob o título “Posta rural e prolongamento do serviço urbano” (transcrito em varias edições do DOU em dezembro de 1892 e que resumirei nos trechos mais relevantes).

Ele prevê o levantamento, nas freguesias, do número de habitantes, das agencias existentes, do movimento da correspondência, dos meios de transporte disponíveis etc. Identificados os locais de maior densidade populacional e relativa facilidade de acesso, seriam projetados os itinerários de carteiros, locais de caixas de correio, linhas postais etc. Sempre que viável, estabelecendo a entrega domiciliar, uma condição do Art. 69 do decreto 368-A. Dadas as características geográficas da cidade, considerar que o projeto deverá se ajustar às diferentes necessidades de cada local.

Para tanto, foram conservadas as agencias existentes e criadas outras em pontos necessários, aumentadas as distribuições domiciliares até Campinho, sendo que até Cascadura foi levado o serviço urbano, ou seja, uma extensão de 11 quilômetros (…). Foi, portanto, organizado o serviço de modo a obter-se a ligação das freguesias. As sete agencias criadas em 6 de abril de 1891 por ocasião da reorganização foram as seguintes:

  • Cachoeira da Tijuca
  • Gávea do Jardim (para ligar essa freguesia à de Jacarepaguá pela estrada da Gávea)
  • Guandu do Sapé
  • Nazareth
  • Rio das Pedras
  • Rio das Piabas
  • Taquara (NA: esta foi na verdade restabelecida, pois já existia desde 1872, como vimos anteriormente na planilha do serviço rural)

O serviço rural

Ficam organizados 29 distritos rurais, a saber:

  1. Campinho a Realengo
  2. Campinho à Porta d’Agua
  3. Porta d’Agua a Tijuca
  4. Gavea do Jardim à Tijuca (Marques de S. Vicente, Estrada da Gavea, Barra, Jacarepagua, Cachoeira da Tijuca)
  5. Campinho ao Rio Grande
  6. Taquara a Abaeté
  7. Vargem Grande a Abaeté
  8. Realengo à Taquara
  9. Realengo
  10. Bangu (Viegas, Retiro, Santissimo)
  11. Santissimo a Mendanha
  12. Campo Grande a Mendanha
  13. Campo Grande ao Rio da Prata (Lameirão e Rio da Prata do Cabuçu)
  14. Campo Grande a Matto Alto
  15. Campo Grande a Campo do Colegio
  16. Campo Grande a Matriz (Monteiro)
  17. Campo Grande a Guandu do Sapé
  18. Campo Grande a Inhoaiba e Palmares
  19. Santa Cruz a Palmares
  20. Santa Cruz ao Matadouro
  21. Santa Cruz a Pedra
  22. Pedra a Matriz
  23. Crumarim a Matriz
  24. Vargem Grande a Grota Funda
  25. Sapopemba a Nazareth
  26. Cascadura a Irajá
  27. Cascadura a Penha
  28. Pilares a Praia Pequena
  29. Penha

Em 1895 o DOU publica a lista das agencias rurais em operação. Note-se que já não há muita diferenciação entre as agencias suburbanas e as rurais.


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