Santo Antonio de Sá

Resumo: este artigo trata da história da freguesia e município (vila) de Santo Antonio de Sá, a mais antiga de toda a baixada fluminense. Possuía então grande extensão territorial, área na qual nasceram vários municípios da região.

Dois mapas ilustram a localização geográfica das diversas povoações. O primeiro, de 1868, tem a vantagem de apresentar a geografia da época; o segundo é um mapa político mais atual, de 1953, que permite uma visualização mais atualizada da organização política. Em ambos os mapas, os locais referidos no texto estão identificados pelas letras de A a Z.

Mapa da Província do Rio de Janeiro – Comarcas (1868)

Carta Corográfica  do estado do Rio de Janeiro (1953)

Desnecessário dizer que a motivação para o estudo é fazer a ligação das povoações e municípios com as agencias postais criadas ao longo do tempo.

Segue um pequeno vocabulário dos termos usados neste trabalho. Nos tempos do Império, o catolicismo era a religião oficial de estado, influenciando a organização política. Assim, uma Povoação era referida como um Curato, ou seja, uma capela com um cura residente com autonomia para cuidar das atividades religiosas locais. Uma Freguesia era a menor divisão administrativa, passando na República a se denominar Distrito. Por último, a Vila era um conjunto de Freguesias que nos tempos republicanos passou a se denominar Município.

Bibliografia: A estrutura da apresentação tem como inspiração um artigo de 1937 intitulado “Vilas Fluminenses Desaparecidas – Santo Antonio de Sá”. De autoria do Dr. José Matoso Maia Forte, foi publicado pela Revista da Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro, tomo XLIV. O artigo está disponível na hemeroteca da Biblioteca Nacional. As referências que não estejam explicitadas no texto são dessa publicação.

  1. As origens

Em 1565 uma esquadra comandada por Estácio de Sá, sobrinho do então governador-geral do Brasil, Mem de Sá, foi enviada ao Rio de Janeiro para estabelecer bases de proteção contra as invasões francesas e as ameaças indígenas.

Em 1º de março ele fundou a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro aos pés do Pão de Açúcar. Dois anos depois, com a expulsão dos franceses, chegara vez de solidificar o controle da região com a ocupação da baixada fluminense.

O maior dos rios que desaguavam na baía de Guanabara era o Macacu, navegável em grande extensão. Em 1567 foi erigida às suas margens a capela de Santo Antonio entre os afluentes Caceribu e Guapi-Açu. A capela foi elevada a Curato em 1612 e a Freguesia pelo alvará régio de 10 de fevereiro de 1647 com o nome de Santo Antonio do Caceribu. Foi primeira a se estabelecer na baixada fluminense.

Em 5 de agosto de 1697 o então governador Artur de Sá e Menezes aprovou sua elevação à Vila, com o nome alterado para Santo Antonio de Sá em homenagem à sua família.

  1. A fase de crescimento

No século seguinte a vila prosperou e em 1778 temos notícia de que ela compreendia seis freguesias. A saber:

  • Santo Antonio de Sá ou do Caceribu, sede (A)
  • Nossa Senhora da Ajuda de Sernambitiba ou Guapi-Mirim, criada em 1755 (C).
  • Nossa Senhora da Conceição do Rio Bonito, criada em 1768 (D)
  • São João Batista de Itaboraí, criada em 1696 (E)
  • Nossa Senhora do Desterro de Itamby, criada em 1755 (F)
  • Santíssima Trindade, criada em 1737 (G)

Anos depois, em 1837, uma nova Freguesia seria criada em seus domínios, a de São José da Boa Morte (H).

Das capelas filiais da Matriz de Santo Antonio de Sá, podemos citar o Convento de São Boaventura, construído em 1670 pelos franciscanos dentro do perímetro urbano e de longe a mais importante. Seu declínio começou com as epidemias por volta de 1830 sendo definitivamente abandonado em 1850. Vale ainda citar a capela de Nossa Senhora de Monserrate em Papucaia (G) e a capela de São Jose da Boa Morte (H), origem da freguesia sobre a qual falarei no próximo capitulo.

A agencia postal foi criada em 24 de janeiro de 1820 sendo, juntamente com Nova Friburgo e Cantagalo, as mais antigas do estado  (vale salientar que Campos é hors concours, por ser de 1798, a mais antiga do Brasil).

  1. A decadência

No final do século XVIII as condições que favoreceram o desenvolvimento de Santo Antonio estavam mudando rapidamente. Grande numero de fazendas e engenhos funcionavam na região. O desmatamento para plantações e o intenso comércio de madeira causaram o assoreamento dos rios; enchentes alimentavam pântanos que traziam insalubridade. O resultado foi uma epidemia de malária que grassou de 1830 a 1835, conhecida como “febre de Macacu” e assolou toda a região, particularmente a vila de Santo Antonio, abandonada por boa parte da população.

Fator ainda mais importante, outros locais se mostravam mais adequados para a agricultura, ou com melhor acesso aos mercados, trazendo o desenvolvimento para várias freguesias -entre as quais se destacava Itaboraí – todas concorrendo economicamente com a sede. O progresso resultou na emancipação de várias delas, com territórios desmembrados da antiga sede, como veremos a seguir.

  1. A história das freguesias

Itambi (hoje distrito de Itaboraí)

Às margens do Rio Macacu, mais próximo à foz, foi erigido em 1579 pelos jesuítas o Aldeamento de São Barnabé. Em 1772 o aldeamento foi elevado a vila, com o nome de Vila Nova de São José Del Rei, sendo a ela incorporada a Freguesia de Nossa Senhora do Desterro do Itambi (F), desmembrada de Santo Antonio de Sá. No entanto, Vila Nova seria extinta em 1833 com a emancipação da Vila de Itaboraí, e ambas as freguesias que a compunham foram incorporadas a ela (veja abaixo em Itaboraí).

Magé

Criada em 1696, a Freguesia de Nossa Senhora da Piedade de Magé (K) seria por sua vez elevada a Vila em 1789, sendo a ela anexada a Freguesia de Nossa Senhora da Ajuda de Sernambitiba ou Guapi-Mirim (C), desmembrada de Santo Antonio de Sá

Itaboraí

A Freguesia de São João Batista de Itaboraí foi estabelecida em 1696. Em 15 de janeiro de 1833 seria elevada a Vila São João de Itaboraí (E) e a ela seriam também incorporadas a Freguesia de NS da Conceição do Rio Bonito (D – com território desmembrado de Santo Antonio de Sá) e a agora rebaixada Vila Nova do Itambi (F) descrita em Itambi acima.

Santana de Macacu (atual distrito de Japuíba em Cachoeiras de Macacu)

A Freguesia da Santíssima Trindade foi criada em 1737 “a duas léguas a montante no Rio Macacu” e anexada a Santo Antonio. Pelas informações disponíveis, foi baseada na capela de Santíssima Trindade construída no início do século XVII em uma fazenda na região da atual Papucaia (G). Elevada a Curato em 1675. Entre 1850 e 1854 movimentos políticos acabaram por levar sua sede para Santana de Macacu (B), renomeada Santíssima Trindade de Santana de Macacu. Com a extinção da Vila de Santo Antonio de Sá, sua sede foi transferida para Santana de Macacu e a Vila adotou esse nome. Em 1898 a vila foi renomeada Santana de Japuíba e, em 1923, sua sede foi transferida para Cachoeiras de Macacu (L). A igreja original está em ruínas e localizada em propriedade particular.

Maricá

A Freguesia de Santa Maria de Maricá (M) foi criada em 1755 e elevada a Vila em 1814 com territórios em parte desmembrados de Santo Antonio de Sá (mais precisamente, da Freguesia de Santana de Macacu).

Rio Bonito

Freguesia criada em 1768 com o nome de NS da Conceição do Rio d’Ouro e anexada à Vila de Itaboraí. Elevada a Vila em 1846, desmembrou-se de Itaboraí, com o nome de NS da Conceição de Rio Bonito (D).

São José da Boa Morte

Como vimos acima, a Freguesia de São Jose da Boa Morte (H) foi criada em 1837 em torno da Capela de mesmo nome erigida em 1734. Durante a febre que atingiu Santo Antonio, boa parte da sua população procurou o local pela sua salubridade e, reza a lenda, para ter uma “boa morte”. A Freguesia ficou anexada a Santo Antonio até que em 1868 esta foi extinta e sua sede transferida para Santana de Macacu, a quem Boa Morte passou também a subordinar-se. Entrou em decadência no início de século XX e em 1904 sua sede foi transferida para Subaio (R), distrito de Santana de Macacu desde 1892. As ruínas da igreja ainda podem ser vistas na antiga localidade (a imagem abaixo foi publicada n’O Globo de 19/03/2017 em matéria de Rafael Galdo).

Porto das Caixas (N) (hoje distrito de Itaboraí)

Embora nunca tenha sido sede de freguesia, sua importância estratégica e econômica justifica sua inclusão neste capítulo. Sua origem está na construção em 1595 de capela dedicada a Nossa Senhora da Conceição. Essa capela seria substituída em 1718 por uma igreja de grandes proporções. Quando os religiosos abandonaram o Convento de São Boaventura em 1850, a imagem do santo foi trazida para essa igreja. Por outro lado, sua localização estratégica a tornou o ponto de encontro das caravanas do interior para embarque em seu porto. Daí deriva seu nome. Em 1856 foi elevado a distrito do então município de Itaboraí e em 1860 foi o local escolhido para a estação inicial da EF Cantagalo.

  1. O Começo do fim de Santo Antonio

Acompanhando a história das freguesias do território de Santo Antonio descrita acima, nota-se que a antiga sede não conseguiu acompanhar o progresso, sendo paulatinamente desmembrada. Dos territórios de Santo Antonio, em meados do século XIX restavam apenas as freguesias da sede e a de São Jose da Boa Morte.

A inauguração em 1860 da EF do Cantagalo, no trecho entre Porto das Caixas (N) e Cachoeiras (L) – com estação em Santana do Macacu – representou nova ameaça a Santo Antonio, uma vez que permitia uma rota comercial mais rápida do que o lento trafego fluvial. Ganhava ainda mais importância a Vila de Itaboraí em cujo território se localizava o entreposto comercial de Porto das Caixas. Um pouco mais tarde, a Ferro Carril Niteroiense inauguraria a ligação entre Niterói (Maruí) e Porto das Caixas, passando por Vila Nova, dessa forma completando a ligação ferroviária direta entre a capital do estado e as zonas cafeeiras de Nova Friburgo e Cantagalo.

A extinção da Vila

Desde 1842 a Assembleia Provincial já discutia a extinção de Santo Antonio de Sá, então em franca decadência. Sua resistência mais se baseava em sua importância histórica do que nas bases econômicas. Finalmente, em 6 de novembro de 1868 a Assembleia aprovou não a extinção do município, mas sim a transferência da sua sede para a da sua freguesia mais importante, a de Santíssima Trindade de Santana do Macacu, nome que vila passou a adotar.

A extinção da Freguesia

Quanto à freguesia se Santo Antonio, ela se vincularia a Santana até 1875 quando foi extinta e seu território desmembrado sendo a área que incluía o povoado de Santo Antonio anexada ao município de Itaboraí.

  1. O rocambolesco fim do povoado de Santo Antonio

A partir dessa data (1875), só temos conhecimento de sua existência através da literatura postal, uma vez que sua agência, criada em 1820, continuava a operar. Através das edições do Almanaque Laemmert de 1876 a 1892 (última a publicar essa informação) ficamos sabendo que continuava operando a mala postal entre o Rio e Santo Antonio. O Relatório Postal de 1887 é ainda mais específico quando nos informa que “a mala de Santo Antonio de Sá segue pela EF do Cantagalo até Porto das Caixas e daí ao destino por estafeta”. Depreende-se daí que o povoado de Santo Antonio ainda permanecia em seu local original.

Curiosamente, Santo Antonio seria mais uma vez elevado a sede de distrito conforme nos informa o IBGE em seu Anuário Geográfico do Estado do Rio de Janeiro nº16, 1964/65 pg. 126 inciso IV ao descrever o distrito de Sambaetiba; textualmente: “O distrito foi criado por Decretos estaduais nºs 1 de 8 de maio e 1-A de 3 de junho de 1892, tendo por sede a povoação de Santo Antônio de Sá.

A agencia postal de Santo Antonio de Sá seria oficialmente fechada por ordem da Diretoria Geral dos Correios em 17 de setembro de 1897, conforme publicado no DOU de 18 do mesmo mês. Textualmente: “Determinou-se que a agencia dos correios do districto de Santo Antonio de Sá no Estado do Rio de Janeiro seja transferida para o logar denominado Sambaitiba no mesmo districto”.

Apesar de todos os percalços, Santo Antonio de Sá ainda manteve a condição de sede de distrito até 1910 quando o IBGE registra que “em virtude da lei estadual n° 966 de 31 de outubro desse ano a sede distrital foi transferida para a povoação de Sambaetiba, passando o distrito a ter essa denominação”.

Assim, podemos considerar essa data como o fim de Santo Antonio de Sá. A antiga povoação estava deserta. Dela, restam hoje somente algumas ruínas, em especial as monumentais do convento de São Boaventura num enclave dentro do Complexo Petroquímico de Itaboraí.

Convento de São Boaventura O Globo 2008

7. Sambaetiba (S)

A exemplo das demais localidades às margens da EF Cantagalo, Sambaetiba se beneficiou da situação logística e sua estação recebeu uma agencia postal em 1897 (v. item 6); o Relatório Postal de 1898 já faz referência a uma agencia “Sambaetiba” e o Guia Postal de 1906, bastante detalhado, registra o verbete “Sambaitiba, est.-ag.”

O reconhecimento político veio com a transferência da sede do distrito em 1910, que deixava a histórica Santo Antonio de Sá. O registro está no site do IBGE: “em virtude da lei estadual n° 966 de 31 de outubro desse ano a sede distrital foi transferida para a povoação de Sambaetiba, passando o distrito a ter essa denominação”.

A agência dos correios de Sambaetiba foi desativada em 1999 e substituída por uma AGC – agencia comunitária – que permanece ativa (site dos Correios). Sucessora de uma história que completará em breve 200 anos.

© 2019 agenciaspostais.com.br Paulo Novaes janeiro de 2019