Agencias da Baixada Campista

AS AGENCIAS POSTAIS EM ESTAÇÕES FERROVIÁRIAS NA BAIXADA CAMPISTA

INTRODUÇÃO

A cultura da cana-de-açúcar no norte fluminense teve início no século XVI com um engenho rudimentar construído às margens do rio Itabapoana por Pero de Góis, donatário da capitania de São Tomé. A virada para o século XIX marcou o início da época áurea dessa cultura, contando-se mais de uma centena de engenhos às margens do rio Paraíba do Sul.

A partir da década de 1870 houve um processo de consolidação dessa indústria, com a construção de engenhos centrais e usinas [1]. Isso viabilizou a construção de uma rede de ramais e linhas ferroviárias cujas estações, por sua vez, constituíam local adequado para a instalação de agencias do correio.

A região ao sul do rio Paraíba foi particularmente afetada por esse processo e onde foram construídas as primeiras ferrovias do município. É conhecida por Baixada Campista e envolve os distritos sede (Campos), 2º (Goitacazes), 3º (Santo Amaro), 4º (São Sebastião) e 5º (Mussurepe) Está apresentada no mapa a seguir [2].

O mapa corográfico de 1865 abaixo [3] registra as três mais importantes freguesias da região na época: São Gonçalo de Campos, São Sebastião e Santo Amaro. Todas elas receberiam agencias postais e estações ferroviárias pois estariam nos traçados da malha ferroviária, como veremos ao longo deste trabalho.

O objetivo deste trabalho é apresentar a história das agencias postais na região, especialmente as localizadas em estações ferroviárias. Antecipo que não se trata de tarefa simples. Os dados do IBGE são escassos e as informações colhidas nos documentos ferroviários, postais e jornalísticos são frequentemente conflitantes. Minhas conclusões derivam da melhor interpretação do cruzamento desses dados.

Para referenciar geograficamente os locais, utilizarei uma parcial do mapa atual do município, o mesmo que aparece no menu Campos dos Goytacazes.


 

CAPÍTULO 1: A ESTRADA DE FERRO CAMPOS – S. SEBASTIÃO
 

A primeira ferrovia construída no município de Campos foi a EF Campos a S. Sebastião [4]. Ao longo do tempo, como veremos, ela teve prolongamentos e chegou até a freguesia de Santo Amaro (38 no mapa acima).

 
1.1 Primeiro contrato: linha Campos-S. Sebastião (1870-1873)

A estação inicial foi construída no centro de Campos por volta de 1870. Consta que teria sido renomeada Avenida após a construção da estação da EF Macaé e Campos. Como se vê na imagem [4A], uma plataforma externa servia à linha municipal de bondes.

As obras foram iniciadas em 1871 e o livro de J. Feydit registra simbolicamente o pioneirismo da linha: “No dia 21 de junho de 1873 ouviu-se pela primeira vez o apito de uma locomotiva em Campos” [5].

O primeiro trecho da linha, até a estação de S. Sebastião, foi inaugurado em 1873. A tabela abaixo resume as datas de inauguração das estações e das respectivas agencias postais.

Nota: A estação São Sebastião, então ponta da linha, é objeto de controvérsia. Grande parte dos mapas e registros da época a localizam no Arraial de S. Sebastião, sede da antiga freguesia (31 no mapa). Tenho opinião diversa: a estação ficava de fato na localidade de Mineiros (33 no mapa), nos limites da freguesia, tanto que foi em assim renomeada em 1892. O Arraial ficaria ao largo da linha e só receberia de fato uma estação em 1900, com a construção do ramal de S. Sebastião da EF Campista descrita no Capítulo 3. A pesquisa está apresentada em detalhes no Anexo I ao final do trabalho.

1.2 – Sob a direção da Cia. Leopoldina (1887-92)

Continuando a história da linha, em 1889 a EF Campos a S. Sebastião foi vendida para a EF Macaé e Campos [14]. O carimbo apresentado abaixo é peça histórica desse momento.

A Macaé e Campos, por sua vez, já havia sido adquirida pela EF Leopoldina em 1887. A troca de acionistas teria reflexo nos próximos movimentos.

Estação Mineiros A Câmara Municipal de Campos, em ata da sessão de 14 de agosto de 1888 “concede licença à companhia EF de S. Sebastião para levar seus trilhos pela estrada municipal da estação de Mineiros à usina de mesmo nome, obrigando-se, por termo, a várias condições sobre a conservação da estrada e a não cobrar maior frete nem passagens” [15].

Essa nota nos ajuda a esclarecer a controvérsia apresentada em nota no item 1.1 Fica claro que a ponta da linha é de fato a estação de Mineiros, como a cita a própria Câmara. E não se trata de “um prolongamento até a estação Mineiros” como registram alguns autores, mas simplesmente um “puxadinho” da estação existente até a Usina.

Sobre a Usina: constituída em 3 de março de 1886 [16] seria vendida em 23 de abril de 1888 para outro grupo [17], o qual, poucas semanas depois, obteria da Câmara a concessão para o prolongamento da EF aos seus domínios. Esse “prolongamento” à usina, que ficava próxima à estação, foi feito unicamente para servir a empresa. Veja mapa ilustrativo: [18]:

Em 1892 a Cia. Leopoldina publicaria na imprensa o seguinte Aviso [18A]:

“Se faz publico que, existindo mais de uma estação com igual denominação, resolveu esta Cia. Mudar o nome das estações seguintes: (…) Na linha de S. Sebastião, as estações de S. Gonçalo e S. Sebastião, que serão denominadas Goytacazes e Mineiros. (…) Rio de Janeiro, 14 de setembro de 1892”.

Finalmente assume-se o fato de que a estação deve ter o nome, conhecido por todos, alinhado com a sua localidade. Fechando este item, apresento a tabela “Trens de Passageiros” de 1894 onde constam as estações da linha com os nomes que possuíam nessa data [18B].

 

1.3 – Sob a direção da Leopoldina Railway (1898-1902)

 A Leopoldina Railway assumiria em 14.12.1898 a antiga Leopoldina  [19].

Estação Saturnino Braga A nova Companhia, em nota oficial, comunica a abertura em 1º de outubro de 1902 do “posto telegráfico Saturnino Braga” no km 24 da linha S. Sebastião [20]. Como vimos em 1.2, parte da linha já tinha sido construída no prolongamento até a Usina Mineiros.

 

1.4 – Segundo contrato: Saturnino Braga a Santo Amaro ou Linha de Santo Amaro (1906-1908)

O Decreto nº 991 de 25 de outubro de 1906 autorizou a Leopoldina Railway a estender a linha até Santo Amaro de Campos. A linha foi aberta ao tráfego em 15 de junho de 1908 [21].

Nota: uma segunda estação “Mussurepe” seria criada no ramal de S. Sebastião, vide Capítulo 3. No Anexo II há detalhes sobre a confusão causada pelas estações homônimas.

Fechando este capítulo, apresento a tabela “Estradas de Ferro” de 1910 onde constam as estações da linha com os nomes que possuíam nessa data [25].


 

CAPÍTULO 2: A ESTRADA DE FERRO CAMPISTA
 

A Companhia EF Campista foi autorizada pelo Decreto nº 130 de 16 de outubro de 1894 [27] a construir uma ligação ferroviária entre Campos e a foz do rio Paraíba com leito construído na margem direita do rio, num total de 39 km. Um dos objetivos dessa linha era certamente otimizar o transporte do açúcar produzido em Campos para o porto de São João da Barra até então feito por embarcações a vapor.

A estação em Campos era a mesma “Avenida” descrita no capítulo 1. Em 31 de outubro de 1895 foi inaugurada a primeira secção da linha entre Atafona e a usina Barcellos, compreendendo todo o trecho em território do município de S. João da Barra [26]. O tráfego definitivo de toda a linha foi iniciado em 3 de setembro de 1896 [27].

A tabela abaixo resume as datas de inauguração das estações e das respectivas agencias postais.

A Cia publicou em 9 de maio de 1897 a tabela oficial de horários [28] mostrada abaixo.

Com a conclusão da linha, como veremos a seguir, a EF Campista pode estender a linha com a construção de um ramal a partir da estação de Martins Lage.


 
CAPÍTULO 3: RAMAL DE SÃO SEBASTIÃO
 

O Ramal de S. Sebastião foi construído pela EF Campista partindo da estação Martins Lage (também conhecida por Comendador Lage) até o arraial de São Sebastião, num percurso aproximado de 5 km. O trajeto atendia a várias usinas importantes, tais como Tahy, Limão, Cambahyba e Poço Gordo (as duas últimas também tiveram estações homônimas mais tarde).

Houve uma primeira viagem experimental festiva no sábado 29 de setembro de 1900 de Campos até o final da linha. O Monitor Campista deu uma pequena nota no dia 30, que vale transcrever:

A freguezia de S. Sebastião pela antiga classificação, ou 5º distrito pela moderna, esteve ontem alegre e festiva com muita razão. Os povos daquela localidade ouviram, pela primeira vez dentro do arraial, o silvo agudo da locomotiva em viagem de experiência. Nossos parabéns aos moradores de S. Sebastião por mais esse progresso, apesar de possuírem eles há mais de 20 anos uma estrada de ferro – em nome apenas – a de Campos a S. Sebastião” [31].

Penso que essa nota (com grifos meus) confirma mais uma vez a questão: São Sebastião (sede do distrito) não teve estação da EF Campos a S. Sebastião.

A linha foi inaugurada oficialmente em 15 de dezembro de 1900, chegando ao arraial onde nessa data foi finalmente inaugurada a estação “S. Sebastião”, agora merecedora do nome por estar na sede do distrito. Transcrevo trecho dessa matéria:

Inaugurou-se hontem este ramal da EF Campista. O trem partiu da estação de Campos às 10,10 da manhã e chegou ao arraial às 11,30. Este se achava ornamentado e a entrada da locomotiva foi saudada entusiasticamente” [32].

A tabela abaixo resume as datas de inauguração das estações e das respectivas agencias postais.

A Leopoldina Railway assumiu a EF Campista em 19 de junho de 1901 [21]. Em 1903 São Sebastião mais uma vez ficaria sem uma estação com seu nome, como se vê na tabela acima. Uma lambança com o nome da estação está descrita em detalhe no Anexo II.

Todas essas linhas seriam desativadas nos anos 1960. Baixa Grande, Campo Limpo, Mussurepe, Poço Gordo, São Sebastião e Saturnino Braga ainda têm agencias tipo AGC em operação [39].

O anexo II traz ao final mais algumas informações mais recentes sobre locais e estações registrados até aqui.


 

ANEXO I – A CONTROVÉRSIA SOBRE A ESTAÇÃO S. SEBASTIÃO

 Conforme anunciei no Capítulo 1, este anexo detalha o estudo sobre a localização da estação S. Sebastião, centro de uma controvérsia do traçado da ferrovia tal como apresentado em vários mapas da época, entre os quais o mapa postal de 1888 (à esquerda) [40] e o geográfico Laemmert de 1892 [41].

     

Notem que ambos os mapas traçam um pronunciado desvio para leste a partir de S. Gonçalo de modo a apresentar S. Sebastião como final da linha (o mapa de 1892 mostra em cinza o traçado de um caminho até Santo Amaro que a ferrovia aproximadamente acompanharia no futuro, como veremos). Já os mapas mais recentes, como os do alto da página, apresentam um traçado em direção sudeste até S. Amaro, com isso passando ao largo de S. Sebastião. Essa é a essência da controvérsia.

As obras da linha foram iniciadas em 1872 e “no dia 21 de junho de 1873 ouviu-se pela primeira vez o apito de uma locomotiva em Campos” [5]. Seu primeiro trecho, de Campos a S. Gonçalo, foi inaugurado em 5 de julho de 1873. A nota que registrou o fato termina com a mensagem “fazemos votos para que a conclusão da estrada se acelere (…) para o progresso do nosso esperançoso município” [42].

Aparentemente os votos não ajudaram muito, pois rarearam notícias sobre o progresso da ferrovia na grande imprensa até o jornal A Nação publicar nota que “foi inaugurado em 9 de setembro de 1873 mais um lanço (…) até a estação de Campo Limpo”. Como na anterior, a nota termina dizendo que “há probabilidade de até o fim do ano estarmos em comunicação com o arraial de S. Sebastião, ponto final da linha” [43].

O grifo é meu para enfatizar que se esperava que a EF atingisse a sede da freguesia, ou seja, o Arraial. Mas a partir dessa data quase não há mais menções, muito menos oficiais – o que é de se estranhar pois o próximo passo seria comemorar a inauguração da linha.

Continuo a apresentar cronologicamente as esparsas informações garimpadas na imprensa.

  • 1874 – a edição desse ano (relativa a 1873) do Almanak Laemmertdiz que “a linha começou a funcionar em 7 de julho e ficou aberta em toda a sua extensão em 21 de dezembro de 1873”. Curiosamente no suplemento da mesma edição a mensagem é diferente: “o tráfego até S. Gonçalo seria inaugurado em julho” [44].

O grifo é meu, salientando que o nome da estação final é omitido.

  • 1876 – a EF publica anúncio oferecendo trem especial para um evento festivo em Campos; nele é mencionada pela primeira vez a “estação S. Sebastião” como um dos locais de saída [45].

Baseando-me nessas duas últimas informações, tudo indica que teria sido terminada e estava em operação a linha projetada até “S. Sebastião”. Seria mesmo até o arraial? Achei tudo meio nebuloso, sem comunicado formal ou merecida reportagem na imprensa. Prossigo com as notas:

  • 1876 – a sessão de 14 de novembro da Assembleia Legislativa do RJ contêm um diálogo ilustrativo entre os deputados. Nele, fica claro que a linha não chegava ao arraial de S. Sebastião, sede da freguesia homônima [46].
  • 1880 – anúncio classificado no Monitor Campista de 24/11 oferece negócio “em terreno contíguo à estação de Mineiros”.

A nota de 1876 nos esclarece que a estação final de linha era distante de S. Sebastião. A segunda nota nos apresenta a estação Mineiros. Que estação seria essa? Esse nome só apareceria oficialmente em 1892, como veremos adiante.

  • 1882 – anúncio no Monitor Campista de 8 de junho informa que “um trem especial partirá da Estação Central da EF de Campos a S. Sebastião para um passeio recreativo à estação de Mineiros”.

Trata-se de um fato curioso: as tabelas de horários publicadas a Companhia listam a “estação S. Sebastião”; mas aqui se aponta a “estação de Mineiros” que lá não consta. Seriam o mesmo local?

  • 1884 – Na sessão de 20 de outubro da Assembleia Legislativa Provincial decidiu-se “dividir a freguezia de S. Sebastião de Campos em dous districtos fiscais, sendo o primeiro districto limitado (…) pela estação de Mineiros, estrada do Desbanque até a Pedra (…)” [47].

Mais uma referência, desta vez oficial, à estação Mineiros. Com isso ficamos sabendo que a estação é um dos marcos divisórios da freguesia de S. Sebastião. Isso pode também ser observado no mapa de 2002 apresentado ao alto. Ou seja, a EF não deixou claro se iria para o arraial (a sede da freguesia) ou até os limites da freguesia, onde de fato chegou. Gerando toda a confusão, chamou essa estação de S. Sebastião (afinal, esse era o nome da linha).

Peço desculpas por repetir alguns parágrafos já publicados no Capítulo 1 para manter a sequência de apresentação:

  • 1888 – ata da sessão de 14 de junho de 88 da Câmara Municipal de Campos “concede licença à Cia EF de S. Sebastião para levar seus trilhos da estação de Mineiros à usina de mesmo nome” sem alterar preços de frete e passagens [15].

Fica cada vez mais claro que a ponta da linha é de fato a estação de Mineiros, nome que remete ao local onde se localizava. E não em São Sebastião, arraial.

Sobre a Usina: constituída em 3 de março de 1886 [16] seria vendida em 23 de abril de 1888 para outro grupo [17], que poucas semanas depois obteria da Câmara a concessão para o prolongamento da EF aos seus domínios. Esse “prolongamento” à usina, que ficava próxima à estação [18], foi feito unicamente para servir a empresa (ver o mapa [22]).

  • 1889 – A Revista de Engenharia, edição de 2 de outubro de 1889, além de confirmar o início das obras do prolongamento em Mineiros, ainda nos informa que a atual proprietária da linha é agora a Companhia EF Macahe e Campos.
  • 1892 – Uma nota publicada pela EF Leopoldina de 15 de setembro informa que a estação de S. Gonçalo foi renomeada Goytacazes e a de S. Sebastião renomeada Mineiros [13].

A linha, agora sob direção da Leopoldina, finalmente resolve assumir o fato de que a estação, até agora chamada São Sebastião, deve ter o nome pelo qual é conhecida por todos: Mineiros.

Conclusão: os fatos apresentados creio serem suficientes para afirmar que a EF Campos a S. Sebastião nunca chegou ao arraial, ou seja, à sede da freguesia, passando de fato ao largo desta. A ponta da linha foi a estação de Mineiros, originalmente nomeada S. Sebastião e mais tarde corretamente renomeada Mineiros, alinhando o local, a estação e a agencia.

Na minha opinião, o fato de a Cia. ter nomeado como S. Sebastião a estação no final da linha ao invés de Mineiros (nome do local) teria sido a chave para a confusão. A nota [31] elucida bem essa questão.


 

ANEXO II – OUTRA LAMBANÇA COM A ESTAÇÃO S. SEBASTIÃO

Como vimos no Capítulo 3, a estação “S. Sebastião” foi inaugurada em 15/12/1900 na sede do distrito. Até que enfim. Mas em 1903, menos de três anos depois, ela já seria renomeada Mussurepe. Vejamos:

  • Nota na A Capital edição de 5 de setembro de 1903 reza: “A Leopoldina Railway resolveu mudar o nome da estação de S. Sebastião na linha Campista para Mussurepe.” A nota infelizmente não diz o motivo.
  • Em nota publicada na imprensa, a “directoria da Repartição Geral dos Telegraphos em officio n. 1161 de 14 de setembro de 1903 declara que a estação de S. Sebastião da Leopoldina Railway no Estado do RJ, via Campos, passou a denominar-se Mussurepe, afim de não confundir-se com a de igual nome no ramal de Pirapetinga” [51]. Talvez este seja o motivo também da nota anterior.
  • Já o Boletim Postal de setembro de 1903 reza: “por portaria de 23 passou a denominar-se ‘Mussurepe’ a agencia da Estação de S. Sebastião no Estado do RJ”.

A tríplice informação não deixa dúvida: em 1903 tanto a estação ferroviária, como a estação telegráfica e a agencia postal mudaram de nome em setembro. Mas pergunto: por que Mussurepe? Estamos no local 33 (ref. mapa atual) e a povoação com esse nome fica no local 41, onde já funcionou uma agencia postal de 1893 a 1899 como vimos em 1.4. Vejam a lambança que resultou:

  • Como vimos no Capítulo 1, a Leopoldina em 1906 daria prolongamento à EF Campos – S. Sebastião em direção a Santo Amaro, inaugurando uma nova estação Mussurepe nessa linha em 1/7/1908 [22]. Mas como, se já havia uma estação homônima desde 1903 na linha Campista? O que ela fez? Aparentemente renomeou esta para Colomins nessa mesma data [35].

Neste momento (1908) a povoação se chamava S. Sebastião, a estação ferroviária Colomins e a agencia postal Mussurepe.

  • Os Correios acompanharam a estação em 6/2/1911, renomeando Mussurepe para Colomins [BP];
  • Mas em 22/5/1911 eis a confusão: cancelaram essa mudança e, na mesma data, renomearam S. Sebastião para Colomins [BP]. Ou seja, acabaram por renomear S. Sebastião duas vezes, em 1903 para Mussurepe e em 1911 para Colomins. Pior: a agencia Mussurepe não foi extinta e assim temos duas agencias no mesmo local. Será que é por isso que uma agencia Mussurepe só foi criada em 1924 na linha de Santo Amaro?
  • Para efeito deste trabalho, eu considerei como válida somente a data de 6 de fevereiro, o que faz sentido.

O próprio GP de 1906 ecoa essa confusão em seus verbetes, registrando que ambas são antigas S. Sebastião de Campos (uma em cada linha ferroviária…). Pode isso?

Em 1913 a povoação chamava-se S. Sebastião, a estação Colomins e a agencia também Colomins. Mas, alimentando a confusão, os GP de 1913 e o de 1920 registram o verbete “Colomins (São Sebastião de Campos) Mussurepe – estação ag. 4ª.classe” (sic). Todos os três para não errar (risos).

Em 1938, o distrito de São Sebastião seria renomeado Barão de São Jose [IBGE] e a estação acompanharia a mudança em 1º de outubro de 1944 [36].

O Guia Postal de 1957 registra “Barão de São José (ex-Colomins) vila e estação da EF Leopoldina”. Sem agencia. [50]. No entanto, ele também apresenta o verbete “Colomins, povoado agencia 4ªP”.

Até aqui pensava que Colomins seria só o nome da estação de S. Sebastião, mas agora parece um local separado.  A agencia Colomins funcionou até ca.1969 (tenho exemplares de carimbos de 1964). O ramal ferroviário tinha sido extinto em 1966.

Só no GP de 1976 voltaria a aparecer o registro de uma agencia São Sebastião, ainda hoje ativa como AGC.


FONTES E NOTAS

[BN] A grande maioria das referências a publicações resultou de pesquisa na hemeroteca da Biblioteca Nacional – RJ.
[BP] refere-se ao Boletim Postal, publicação mensal dos Correios entre 1889 e 1950.
[GP] Guia Postal
[RC] Relatório Anual da Diretoria Geral dos Correios
[DOU] Diário Oficial da União;
[site] Refere-se a agenciaspostais.com.br
[1] Artigo “O açúcar no norte fluminense” por Paulo Paranhos, 2000.
[2] Secretaria Municipal de Obras e Urbanismo, Prefeitura de Campos, 2002
[3] Detalhe da carta chorographica da Provincia do Rio de Janeiro, Rensburg,1865 (mapoteca da Biblioteca Nacional).
[4] A linha estadual da EF Macaé e Campos partiu de Macaé e só chegaria a Campos no início de 1875. Essa ferrovia não foi abordada neste trabalho por não ser uma linha regional da Baixada Campista.
[4A] imagem de http://camposfotos.blogspot.com. Outra versão está em foto da Biblioteca do IBGE que diz que o edifício hoje ocupado pela Faculdade de Direito teria sido a estação original.
[5] Livro “Subsídios para a História dos Campos dos Goitacazes” por Julio Feydit, Editora Esquilo -1979.
[6] Anúncio da Cia. EF no Monitor Campista ed. 22.11.1876 sobre trem especial para evento em Campos partindo de várias estações da linha.
[7] Nota no Diario do Rio de Janeiro ed. 12.07.1873
[8] Aviso da EF Leopoldina, em 14.9.92 no O Paiz edição 15.9
[9] Nota de 18.09.1873 em A Nação, jornal da Corte que circulou de 1872 a 1876.
[10] Nota da EF Leopoldina em O Paiz 26.10.1900
[11] A edição de 1874 (relativa a 1873) do Almanak Laemmert diz que “a linha começou a funcionar em 7 de julho e ficou aberta em toda a sua extensão em 21 de dezembro de 1873
[12] Aviso da EF Leopoldina, em 14.9.92 O Paiz ed. 15.9 anunciando mudança de nome de S. Sebastião para Mineiros.
[13] O Jornal 24.01.1950
 [14] Revista da Engenharia, edição de 2 de outubro de 1889
[15] transcrito de matéria publicada no Monitor Campista, edição de 15 de agosto de 1888.
[16] A edição de 28 de maio de 1886 do Monitor Campista publica na íntegra os Estatutos da empresa assinados em 3 de março.
[17] Nota discreta publicada no Monitor Campista de 24 de junho de 1888 informa que: “no cartório (…) foi passada hontem a escriptura de venda da usina Mineiros (…) tendo sido compradores os Srs. Francisco Ferreira Saturnino Braga (…)”. O comprador era influente industrial, ex-presidente da EF Carangola e sócio da Saturnino Braga & Cia, proprietária da EF Campos a S. Sebastião.
[18] Detalhe do mapa “Carta Chorographica do RJ de 1922” (Mapoteca da Biblioteca Nacional).
[18A] O Paiz, edição de 15 de setembro de 1892
[18B] Publicado no Almanaque 1894 da Gazeta de Noticias.
[19] Matéria em O Paiz edição de 14 de dezembro de 1898 reproduz o contrato da Leopoldina Railway com o governo do estado.
[20] Nota da Leopoldina Railway na Gazeta de Noticias de 24 de setembro de 1902 informa ter aberto o “posto telegráfico” de Saturnino Braga. O Guia geral das Estradas de Ferro de 1960 informa a inauguração da estação em 1º de outubro do mesmo ano. Vale lembrar que o homenageado era o próprio ex-dono da EF (!)
[21] Helio Suêvo em “A Formação das E.F. no Rio de Janeiro” – 2004.
[22] Guia Geral das Estradas de Ferro 1960.
[23] Nota no J. Commercio de 3/3/1939 “foi elevado à categoria de estação o posto telegráfico Baixa Grande”.
[24] Mensagem do presidente da província do RJ á AL em 1/8/1908.
[25] Almanaque Laemmert 1910.
[26] Nota em O Fluminense de 3 de novembro de 1895. Ela também diz, entre outras coisas, que a estação em S. João da Barra se chamará “Porciuncula”.
A Usina Barcellos foi a segunda a ser construída depois da de Quissamã. Foi inaugurada em 23 de novembro de 1878 com a presença da família real.
[27] Helio Suevo em A Formação das Estradas de Ferro no Rio de Janeiro (2004).
[28] Tabela de horários da EF Campista publicada no J. do Commercio edição de 10 de maio de 1897.
[29] DOU de 12 de maio de 1895
[30] DOU de 28 de abril de 1955
[31] “A freguezia de S. Sebastião pela antiga classificação, ou 5º distrito pela moderna, esteve ontem alegre e festiva com muita razão. Os povos daquela localidade ouviram, pela primeira vez dentro do arraial, o silvo agudo da locomotiva em viagem de experiência. Nossos parabéns aos moradores de S. Sebastião por mais esse progresso, apesar de possuírem eles há mais de 20 anos uma estrada de ferro – em nome apenas – a de Campos a S. Sebastião” Monitor Campista edição de 30.09.1900 assinada por I.G.N.
[32] Monitor Campista edição de 16 de dezembro de 1900.
[33] Almanaque Laemmert edição 1904 (estradas de ferro, grupo3)
[34] Nota da EF Leopoldina alterando nome de S. Sebastião para Mussurepe publicada na A Capital ed. 05/09/1903.
[35] Tabela de horários publicada pelo Almanaque Laemmert em 1909 cita Colomins, ex-Mussurepe. Por outro lado, temos documentação [22] de criação de estação Mussurepe na linha Campos -S. Sebastião em 01.07.1908. Assim, nessa mesma data para evitar duplicidade deveria ser mudado o nome da estação do ramal de S. Sebastião.
[36] Nota da Leopoldina publicado no Diario da Noite em 4/9/1944; mudança de Colomins para Barão de S. Jose “por decisão do Conselho Nacional de Geografia”.
[37] Tabela de Vencimento de Agentes 1906-7
[38] A agencia “Arraial de S. Sebastião” ERJ 282 foi realocada na estação local inaugurada em 1900 (nota 32). Conclui-se isso do BP de 1903 informando que “a agencia da estação de S. Sebastião passa a denominar-se estação de Mussurepe”.
[39] AGC – agencia de correio comunitária. Parceria dos Correios com as Prefeituras instituída em 2000, destina-se a “viabilizar, no mínimo, a prestação dos serviços postais básicos em pequenas localidades com população superior a quinhentos habitantes, bem como em áreas urbanas onde predomine o interesse social e a exploração econômica de serviços postais não se mostre viável”.
Anexo1
[40] Mapa postal de 1888: De acordo com as convenções do mapa, são indicadas as freguesias de S. Gonçalo e S. Sebastião ligadas por linha diária de correio por ferrovia. Nenhuma das duas está marcada como agencia. Mais ao sul aparece também S. Amaro, indicada como povoação.
[41] Mapa político de 1892: suas convenções indicam S. Gonçalo e S. Sebastião como freguesias ligadas a Campos por ferrovia (desenhada em vermelho), da qual ambas são estações, junto com Almas. Ao sul, a freguesia de S. Amaro está conectada a Campos por estrada (desenhada em cinza).
[42] Diario do Rio de Janeiro, edição de 12 de julho de 1873.
[43] A Nação de 18 de setembro de 1873.
[44]  Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro (Laemmert) ed. 1874 pgs. 496 e 169 do suplemento, com informações sobre a Cia. EF Campos a S. Sebastião. É a última edição que traz comentários da diretoria sobre o andamento das obras.
[45] Publicidade no Monitor Campista em 22 de novembro de 1876.
[46] Annaes da Assembléa Legislativa Provincial do Rio de Janeiro. Sessão de 14 de novembro de 1876. Diálogo entre os deputados Silva Pinto e Alberto Brandão. Diz o primeiro que no dia 3 de outubro um bando se dirigia de madrugada ao arraial de S. Gonçalo pela EF Campos a S. Sebastião para fraudar suas urnas eleitorais; impedidos pelo delegado, seguiram para S. Sebastião que fica a meia légua. Pergunta o outro: “Mas, não iam de trem?” “Não”, responde o primeiro: “porque a última estação dista do arraial de S. Sebastião um quarto de légua”.
[47] Idem. Sessão da comissão da fazenda e orçamento analisando e aprovando proposta da câmara municipal de Campos em 20 de outubro de 1884.
Anexo2
[50] O GP 1957 apresenta o verbete “Barão de São Jose, est. ex-Colomins”. É a única menção em documento postal que conheço.
No Diario Carioca de 27.6.57 um deputado solicita que “a Leopoldina” restabeleça como S. Sebastião o nome da estação “substituído recentemente”. Mais uma das confusões locais, já que “recentemente” foi a agencia que mudou de nome (a estação foi em 1944, v. nota 36).
[51] Nota no J. do Brasil de 26 de setembro de 1903. A estação de S. Sebastião foi inaugurada no ramal de Pirapetinga em MG bem antes, por volta de 1879.

©agenciaspostais.com.br outubro de 2019 (por Paulo Novaes)