Baixo Guandu

BAIXO GUANDU

O distrito de Baixo Guandu foi criado em 9 de fevereiro de 1915, subordinado a Linhares. Situado na foz rio Guandu, afluente do Rio Doce, próximo à divisa com o estado de Minas.  Em 31/12/1921 o município de Linhares foi renomeado Colatina, então um seu distrito. Baixo Guandu foi elevado a município com o mesmo nome em 10 de abril de 1935, desmembrado de Colatina.  O município é constituído de cinco distritos: Baixo Guandu, Alto Mutum Preto, Ibituba, Quilômetro 14 do Mutum e Vila Nova de Bananal.

 

Histórias e curiosidades sobre as agencias

OS PORTOS DO RIO DOCE NO SECULO XIX (por P. Novaes, 2021)

A região objeto deste artigo está abaixo apresentada em dois mapas atuais e complementares: o primeiro é da Wikimapia, com comentários do autor, e o segundo do Google.

O povoamento do vale do Rio Doce na região da divisa das províncias do Espírito Santo e Minas Gerais foi bastante lento em decorrência da hostilidade dos índios botocudos. Somente na segunda metade do século XIX começou o desenvolvimento pelos vales dos rios Manhuaçu e Guandu com a chegada de colonos fluminenses e de imigrantes, em sua maioria italianos, que se dedicaram especialmente à cultura de café e cereais.

O desenvolvimento exigia rotas de comércio para os mercados consumidores, sendo o rio Doce caminho natural a ser explorado por ser navegável em quase todo o território capixaba.

  1. O Porto de Souza

Sua história começa com a posse do governador Dr. Antonio Pires da Silva Pontes Leme em 1800. Em 4 de abril desse ano ele criou um registro aduaneiro e um posto militar avançado (chamado ‘Quartel’) no Porto do Souza às margens do rio Doce. O nome foi uma homenagem ao conde de Linhares, Dom Rodrigo de Souza Coutinho.

O porto já era mencionado por volta de 1860 como núcleo populacional. O local tinha relevância geográfica por estar no limite do trecho navegável do rio, já que a montante começava uma série de corredeiras que ficaram conhecidas por “Escadinhas”.

(Fig.1) – O Espirito-Santense, edição de 3 de agosto 1872 (BN)

A primeira menção a uma empresa de navegação menciona o decreto ministerial 5007 de 10 de julho de 1872 “concedendo autorização para o estabelecimento de uma companhia de navegação a vapor no rio Doce, desde sua foz até o porto de Souza”. (fig.1)

 

 

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E o local? Os textos históricos sempre mencionam Porto de Souza como “próximo à foz do Guandu” ou “próximo às corredeiras”. Por outro lado, não encontrei menção que fosse esse o local original da atual Baixo Guandu. Tudo ficou claro quando encontrei o detalhado mapa histórico apresentado abaixo que é da Mapoteca da BN e datado século XIX.

No centro da imagem está identificado o Porto de Souza. O maciço granítico desenhado junto à anotação permite calcular que o local ficava em torno de 2 km abaixo da foz do Guandu. À esquerda, Natividade e as Escadinhas e no extremo direito o local da futura Tatú. (fig.2).

Apesar de toda sua história, Porto de Souza nunca teve agencia postal própria.

  1. Tatú (Porto do Tatú) agencia EES 180

A motivação para escrever esta matéria sobre os portos do rio Doce foi a descoberta da agencia postal Tatú foi. Ela ficou tão esquecida que, como veremos adiante, a data de sua criação foi atribuída a Baixo Guandu em documento oficial.

A agencia. Em nota na edição de 5 de outubro de 1884 do jornal A Provincia do Espirito Santo encontrei o comunicado oficial da Administração Geral dos Correios do ES citando o officio n. 33 do DGC de 17 de setembro que informava a criação da agencia “Tatú” em porto no Rio Doce. (fig.3).

 

 

 

O mesmo jornal traria na edição de 1.1.1885 uma nota em sua coluna Factos e Boatos informando que “por interesse do público” a agencia foi transferida do Tatu para o Baixo Guandu em 15 de dezembro de 1884 (fig.4).

O funcionamento efêmero da agencia explica a razão de ainda não havermos detectado sua existência. Ainda mais porque o documento que nos apresenta Baixo Guandu, a mais antiga agencia da região, crava a data de sua criação em 16 de setembro de 1884 que, agora sabemos, é na verdade a data de Tatú, posteriormente transferida àquele local (figs 5 e 5A – Relatório Postal de 1886)

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Mas, em que altura do Rio Doce estava Tatú? Uma busca na Hemeroteca da BN – RJ trouxe algumas indicações. Dentre as fontes oficiais mais antigas, transcrevo trecho a partir do parágrafo 4 da página 38 do relatório apresentado pelo então presidente do Espírito Santo dr. Manoel da Silva Mafra à Assembleia Legislativa Provincial em 22 de outubro de 1878. No texto, fica patente a importância atribuída ao porto Tatú e sua localização a jusante do Porto do Souza (fig.6).

Encontrei também uma informação indireta, mas muito reveladora, que coloca Tatú no local do futuro porto Mascarenhas. A importância desse local fica patente por ter se tornado distrito dos municípios de Colatina e mais tarde de Baixo Guandu. Transcrevo matéria publicada na A Provincia do Espirito Santo de 10 de abril de 1889 que qualifica o Porto Mascarenhas de “antigo Tatú” (fig7).

 

  1. Porto Mascarenhas

Conclui-se que, por algum tempo, Tatú foi o centro do comércio entre as províncias, fato que justificou a criação de agencia postal em 1884 com esse nome, como vimos. Cruzando as informações disponíveis, deduzo que Tatú passou a ser referido por Mascarenhas por volta de 1889, provavelmente em homenagem ao fazendeiro local Coronel Henrique de Paula Mascarenhas.

O desenvolvimento incentivou a criação da agencia postal “Porto do Mascarenhas” em 7 de julho de 1898. Essa agencia funcionou até ca.1964 quando foi transferida para a nova sede do distrito no Quilometro 14 do Mutum. Funcionou com algumas interrupções e com alternância de nomes, veja: Porto do Mascarenhas, Villa de Mascarenhas, Mascarenhas e mesmo Domingos Martins que aparece somente no GP de 1906 (Nota: figura notável na política brasileira e capixaba, este último renomearia o município de Santa Isabel em 1921 – vide).

Politicamente, por volta de 1905 já havia menções na imprensa ao “distrito de Villa Mascarenhas”.  Em 1911 o IBGE lista o distrito “Mascarenhas” em Linhares, transferido a Colatina em 1921 e a Baixo Guandu em 1938. Finalmente, em 1964 a sede do distrito passa para a localidade de Quilometro 14 do Mutum.

Em 1907 a ferrovia chegou ao local e o primeiro nome da estação foi “Mailasky” – que deve ter sido nome do local por um tempo – há mapas com essa indicação. A estação seria renomeada Mascarenhas por volta de 1940. Como se vê, uma profusão de nomes no local.

  1. A era das ferrovias

Toda a região seria impactada pelo projeto da EFVM – Estrada de Ferro Vitória a Minas. Não seria a curto prazo, já que os trilhos chegaram a Baixo Guandu somente em 1910. Mas a estratégia de investimentos futuros seguramente foi afetada.

É sintomática a nota publicada pelo jornal A Provincia do ES em 17 de agosto de 1883. Resumindo, ela informa que a comissão de revisão do traçado da ferrovia montará seu acampamento no Tatú “durante os seus trabalhos n’aquella parte da Província” (fig.8). Assim, ao mesmo tempo que revela a importância do local, sabe-se que aí se discutirá o seu futuro.

 

  1. História recente

O distrito de Baixo Guandu só será criado em 9 de dezembro de 1915 com subordinação a Linhares e elevado a município em 1935. O impacto econômico da ferrovia ao município de Linhares, que ficaria fora do traçado, foi imenso. Antes um imenso município, que englobava todo o curso do rio Doce, entrou em decadência. O progresso tornou seu antigo distrito de Colatina um município em 1921, ao qual Linhares ficou por sua vez subordinado só voltando a se emancipar em 1943.

Não há registro de ruínas do Porto de Souza. Mascarenhas é um povoado em frente à hidrelétrica de mesmo nome construída no rio Doce em 1974.


Carimbos de Baixo Guandu

Nota: na EES 182, o primeiro carimbo (pouco legível) reza Porto Mascarenhas e o segundo Va. Mascarenhas. Os dois estão na mesma agencia pela confusão de nomes e datas a que me refiro no artigo acima.

© 2015-2021 www.agencias postais.com.br (atualizado em fevereiro de 2021)

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