O artigo “CARTA PERRET” de minha autoria (*) foi publicado no nº 206 da revista Filacap em 2021. Eu o reproduzo abaixo atualizado com novas informações encontradas. Ao final reproduzo a imagem do artigo original.
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A carta apresentada acima, objeto deste artigo, é um bom exemplo do que nos faz apreciar a carimbologia e a história postal.
Foi postada em Neuchâtel, Suíça, em 9 de outubro de 1845, um cantão na fronteira da França. Recebeu o carimbo Pontalier no dia 10 ao entrar na França (em vermelho à direita). Seguiu para o porto do Havre onde recebeu o carimbo do Bureau Maritime – Havre no dia 13 e a indicação PP (em violeta) – porte pago até o porto de destino. O carimbo do Havre foi aposto no verso da carta, visível na imagem aberta à esquerda em vermelho.
O belo carimbo de recepção no Rio está datado de 6 de dezembro de 1845. Trata-se do exemplar catalogado por Paulo Ayres sob o nº 1608 utilizado nos anos 1840 como mostra a imagem ao lado.
Ao chegar ao Rio, foi taxada em 120Rs conforme anotação à mão no canto superior direito (e riscada).
Decifrar o prenome do destinatário não foi fácil mas, por sorte, encontrei menção ao imigrante na matéria da Wikipedia sobre Sapucaia. Reproduzo o trecho parcialmente, com ênfase no prenome do imigrante.
Vejam que Jämes é um prenome alemão, com trema no ä, que também pode ser escrito ae: Jaemes, Jaemes Perret.
Mas, não é exatamente o nosso destinatário?
A carta foi endereçada a Monsieur Jaemes Perret, Bonne Espérance (par Rio Janeiro Brèsil). Ao chegar ao Rio, aparentemente não se conseguiu localizar o destinatário. Não existia estabelecimento comercial com esse nome na cidade, mas é louvável o esforço dos Correios:
- Na primeira tentativa, na vertical à direita da frente da carta, lê-se “Viollas 78”. O que faz sentido, pois nesse endereço – Rua das Violas, 78 [1] funcionava a fábrica de “Gaz Hydrogenio Liquido” utilizado para iluminação, cujo proprietário está indicado como Charles Perret-Gentil – o qual também exercia desde 1839 a função de consul-geral da Suíça no Brasil.
Entretanto, na aba à esquerda da carta aberta, com caligrafia parecida, lê-se: “Não é lá”. Ou seja, aparentemente nem mesmo o cônsul conhecia o homônimo destinatário.
- Na segunda tentativa, com uma caligrafia diferente alguém anotou “Apparecida” ao pé da carta como novo destino. Também faz sentido, pois nessa época existia a importante fazenda “Boa Esperança” [2], no território da Freguesia de Nossa Senhora de Aparecida em Sapucaia conforme se lê no verbete do Guia Postal de 1906:
A Freguesia de Apparecida foi criada em 26/04/1841 e possui agencia postal desde 16/11/1842, que está ainda ativa sob a forma de AGC com o nome de “Nossa Senhora de Aparecida”. A fazenda fica próxima à atual localidade de Pião.
Dessa vez os Correios acertaram, o Mr. Jaemes Perret era mesmo o dono da fazenda. Mas me parece que ele não a aceitou, pois a carta voltou para o Correio Central onde ficou em posta restante até 23 de abril de 1847, quando foi devolvida ao remetente, conforme atesta o segundo carimbo CGC. Há ainda uma anotação “reçue le 6 Mars 1848” na parte interna da carta (que se vê na aba inferior da carta aberta) que indica o recebimento pelo remetente.
Cento e setenta e seis anos depois ela está de volta ao Rio de Janeiro, catalogada na minha coleção no menu CGC – Correio geral da Corte (onde está descrito esse carimbo de 1845 – que é o primeiro carimbo utilizado na era filatélica na Brasil).
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Notas
[1] Rua das Violas: rua muito antiga, seu nome deriva dos artesãos violeiros que nela se instalaram por algum tempo. Em meados do século, nela funcionavam os consulados de alguns estados alemães anteriores à unificação: Baviera, Hanover e Lübeck (talvez também o da Suíça, quem sabe?). Em 1869 recebeu o nome de Teófilo Otoni (Vila do Príncipe-MG, 1807 – Rio de Janeiro 1869). Os dados são do livro História das Ruas do Rio, Brasil Gerson (Bem-Te-Vi, 2013)
[2] A Fazenda Boa Esperança (FIG.6) foi construída em 1786 pelo imigrante suíço Frances Perret em Sapucaia, próxima a Nossa Senhora de Aparecida. Essas informações me foram passadas por Diogo Lopes Carvalho, atual proprietário e tetraneto de Perret (nome e data como me informou).
(*) Paulo Novaes é filatelista e editor do site sobre História Postal do Estado do Rio de Janeiro: www.agenciaspostais.com.br
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Segue o fac-simile da matéria original publicada, que possui algumas diferenças com o texto acima revisada em janeiro de 2022 com novas informações.
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