Capítulo 4
Agencias Postais de Divisa no Ramal de S.Paulo da EF D.Pedro II
Um pouco de história
Openstreetmap Wikimedia com ilustrações do editor – Figura 1
A região apresentada no mapa acima era em meados dos anos 1870 parte de dois tradicionais municípios paulistas, Lorena e Queluz. Nessa época, uma área pouco povoada entre o Rio Paraíba e os contrafortes da Serra da Mantiqueira.
Provenientes de Minas Gerais, rotas de tropeiros atravessavam a serra em busca do rio Paraíba e dos portos em Angra dos Reis para escoar suas mercadorias. Entre elas a famosa Estrada Real (em vermelho no mapa) do século XVII, que ligava Paraty à Vila Rica, atual Ouro Preto, em Minas Gerais.
Junto a essas rotas, para abastecer os tropeiros floresceram povoados, que originaram duas freguesias, ambas criadas em 1846 e assinaladas no mapa acima. São elas a de Nossa Senhora da Conceição de Embaú, à margem da Estrada Real, subordinada a Lorena e origem do município de Cruzeiro e a de São Francisco de Paula dos Pinheiros, subordinada a Queluz, à margem de outra rota que descia a serra na direção do rio Paraíba e origem do município de Lavrinhas. Uma sessão em 1872 da Assembleia Provincial de S. Paulo refere-se ao processo de demarcação das divisas entre elas (Correio Paulistano de 18.03.1872).
Uma terceira freguesia seria criada em 1876, após a chegada da ferrovia, a Freguesia de Santo Antonio da Cachoeira, subordinada a Lorena e que daria origem ao município de Cachoeira Paulista.
As Estradas de Ferro
Mapa A. Speltz de 1885 – detalhe (Hemeroteca BN). Est. de Cachoeira em azul
EF D. PEDRO II
Ramal (ou Linha) da Cachoeira entre Barra do Piraí RJ) e Cachoeira Paulista (SP)
A história das ferrovias remonta à criação da Companhia Estrada de Ferro Dom Pedro II, em 1855. Seu objetivo era construir uma integração nacional. Assim, seu traçado original previa subir a serra até Barra do Piraí situada às margens do rio Paraíba, onde se bifurcaria. A linha do centro acompanharia o curso do rio a jusante até Porto Novo do Cunha e o Ramal de S. Paulo a montante seguiria até Cachoeira, importante entreposto comercial por ser este o final do trecho navegável da rota fluvial que vinha do vale do Paraíba paulista.
EF SÃO PAULO E RIO DE JANEIRO
Estrada de Ferro do Norte, entre S. Paulo e Cachoeira
Em 1869, foi constituída por fazendeiros do Vale do Paraíba a Companhia São Paulo e Rio de Janeiro para a construção da Estrada de Ferro do Norte, que ligaria a capital paulista á Estrada de Ferro D. Pedro II no povoado de Santo Antônio da Cachoeira. Na época, foi escolhida a bitola métrica para esta ferrovia por sua implantação ser mais barata, pois havia um incentivo federal para seu uso. Em 1875, foi inaugurado o primeiro trecho saindo da Estação do Norte em SP. Em 12.05.1877 os trilhos chegaram ao Porto de Cachoeira e a inauguração oficial da conexão entre elas se deu em 8.07.1877.
As agencias postais de divisa
No trecho paulista do ramal da Cachoeira três estações foram criadas: Lavrinhas, Cruzeiro e Cachoeira. As três teriam agencias postais subordinadas temporariamente ao Rio de Janeiro, constituindo assim as chamadas “agencias de divisa”.
Eu as descreverei em detalhe nos blocos seguintes mas, resumindo, são elas:
- Estação de Lavrinhas (1874-1880)
- Estação de Cruzeiro (1878-1882)
- Estação de Cachoeira (1875-1880)
A ESTAÇÃO DE LAVRINHAS
A ferrovia, que vinha de Queluz pela margem direita do Paraíba, ao encontrar o maciço junto ao rio (círculo em amarelo no mapa Google), teve que cruzar para a margem esquerda construindo para isso uma bela ponte de ferro com a parte central em treliça.
A partir da ponte, a ferrovia seguiria pela margem esquerda até a estação de Cachoeira, estação terminal do Ramal de S. Paulo.
A estação
Na Rota dos Pinheiros, nos contrafortes da serra, o povoado “Capela do Jacu” se desenvolveu ao redor da Capela de Barra Mansa do Jacu dando origem em 1828 ao povoado de São Francisco de Paula dos Pinheiros fundada, segundo a Wikipedia, por Manoel Novaes da Cruz e Honório Fidelis do Espírito Santo (Figura 1). O povoado seria elevado a Freguesia em 1846, e a município em 1881 com o nome simplificado para Pinheiros.
Enquanto isso, na região onde a rota encontrava o Paraíba, desenvolvia-se o garimpo do ouro ficando o local conhecido por “lavrinhas”. Nesse local se instalaram posteriormente fazendas dedicadas ao cultivo de café.
Eis que em 1874 chega a ferrovia D. Pedro II como vimos anteriormente. Logo após a ponte, na margem esquerda, é inaugurada em 21.10.1874 a estação de Lavrinhas [1].
A estação, hoje sede da Prefeitura Municipal (Google StreetView)
No entorno da estação se formaria um novo povoado que foi elevado em 1917 a distrito subordinado ao Município de Pinheiros. Com seu progresso, seria por sua vez elevado a município em pelo decreto-lei estadual de 30.11.1944. Sob o mesmo decreto, o antigo município de Pinheiros é extinto, sendo seu território anexado ao novo município de Lavrinhas (fonte IBGE).
A agencia postal de divisa “Lavrinhas”
ERJ 1050B – Lavrinhas, estação (26.10.1874 a ca.1880)
Atendendo às normas do Correio de criar agencias nas estações em locais distantes de núcleos populacionais, a agencia “Lavrinhas” seria inaugurada na estação em 26.10.1874 (nota em O Globo ed. mesma data) ficando temporariamente subordinada ao Correio Central do RJ, constituindo assim uma agencia de divisa.
A data de transferência de subordinação para SP me é desconhecida, mas no GP de 1880 já consta em SP – data que adotei.
Vale mencionar mais uma fonte oficial, a Tabella de Agencias publicada em 1885. Como se vê na imagem da página de SP, há verbetes de duas agencias Lavrinhas. Uma na Estação (que é a nossa, mas com data não informada) e outra numa Freguesia de 1874, com uma renda minúscula; nesta. a data informada é a mesma da nossa estação, mas está em outra região – uma coincidência [2]
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NOTAS E INFORMAÇÕES – LAVRINHAS
[1] Fonte no livro A Formação das Estradas de Ferro no RJ“” de autoria de Helio Suêvo Rodriguez. Editora Memoria do Trem, 2004.
[2] Sobre a freguesia de Lavrinhas. Para evitar confusão com a nossa Lavrinhas, já que por aqui não existia tal freguesia, fiz uma pesquisa que revelou uma Freguesia de Lavrinhas como distrito do município de S. João Baptista do Rio Verde criado em 1871 (ver imagem abaixo). O distrito foi desmembrado em 1891 formando o município de Conceição de Lavrinha e renomeado Itaberá em1905, seu nome atual (IBGE). Fica no extremo sul do estado de SP.
ESTAÇÃO DE CRUZEIRO
Embaú
As rotas comerciais estabelecidas pelos mineiros que demandavam os portos de Parati e Mambucaba em Angra dos Reis fizeram surgir no local, conhecido por Embaú, roças dedicadas a abastecer os tropeiros. Nessa área, o sargento-mor Antônio Lopes de Lavra iniciou, em 1781, a construção da capela dedicada a Nossa Senhora da Conceição do Embaú, concluída em 1787 [3]
Ao lado da capela formou-se um núcleo populacional que tomou grande impulso com o aumento do trânsito comercial. Assim, em 1846, o curato foi elevado a freguesia subordinado a Lorena. Algum tempo depois a Lei Provincial nº8 de 6 de março de 1871 a elevou à Vila da Conceição do Cruzeiro, desmembrada de Lorena [4] Uma agencia postal foi aí criada em 1876 (Tabella de Agencias de 1885). Esta ficou subordinada à DR-SP.
Duas importantes mudanças nas rotas comerciais trariam impacto na Villa do Cruzeiro. Uma delas, a médio prazo, seria a concorrência do Caminho Novo, nova rota inaugurada no início do século XIX pela baía de Guanabara. Outra, de impacto imediato, seria a chegada da ferrovia D. Pedro II em 1875, cujo traçado era distante da sede do município.
A fazenda Boa Vista e a estação Cruzeiro
A linha, que como vimos no mapa em Lavrinhas, veio pela margem esquerda do Paraíba. Em grande parte desse trecho a linha atravessava a Fazenda Boa Vista pertencente ao major Manoel Freitas Novaes, influente proprietário local a quem se atribuía o desvio da linha. Sabemos que as razões do traçado foram na verdade geológicas, mas de fato Novaes possuía boas relações com a Corte, tanto assim que conseguiu em 4 de setembro de 1878 a inauguração em suas terras da estação de Cruzeiro em prédio por ele mesmo cedido. Uma localização privilegiada em torno da qual cresceu a povoação de Estação Cruzeiro.
A agencia postal de divisa “Estação Cruzeiro”
MRJ 1050C – Cruzeiro, estação (13.11.1878 a 15.12.1882)
A agência postal foi criada na estação em 13.11.1878 como nos informa a nota na Gazeta de Noticias (RJ) publicada na mesma data (imagem). Pelas normas dos Correios, ficou subordinada temporariamente ao Rio de Janeiro, constituindo-se assim em agencia de divisa. A agencia consta no RJ como estação no verbete do GP de 1880 e presumo ter sido transferida a SP com a nomeação de um agente postal pela administração paulista em 15.12.1882 [5].
Como ilustração, um carimbo Estação do Cruzeiro de 1885, já subordinada à DR-SP
A EFMR – Estrada de Ferro Minas e Rio
A EFMR originou-se de uma concessão realizada em 1875 pelo Governo Imperial (*) com a denominação de Estrada de Ferro Rio Verde. Em Londres, a 24 de Abril de 1880, organizou-se uma companhia de capitais ingleses com o nome The Minas and Rio Railway para construir a estrada. Em 21 de Abril de 1881 começaram os trabalhos.
Cruzeiro foi o local escolhido como estação inicial e a linha foi aberta ao tráfego em 22.06.1884 até Três Corações do Rio Verde numa extensão de 170 km. Em 1908 a EFMR (que havia sido nacionalizada em 1902) incorpora a EF Muzambinho e a Viação Férrea Sapucaí formando a Rede Sul Mineira [6].
Uma nova e imponente estação em Cruzeiro foi inaugurada em 4.09.1884 e substituiria o antigo prédio. A foto acima de 1889 é do fotógrafo Marc Ferrez, já com a ferrovia renomeada Central do Brasil. A locomotiva tem grafado E.F.M.R.
(*) vale lembrar que toda ferrovia com traçado em mais de um estado era por lei subordinada ao governo federal.
*
O município Estação Cruzeiro
A influência política do major Novaes teve forte impulso com duas importantes ferrovias em suas terras, o que resultou no Decreto Estadual n.º 190, de 03-06-1891, que transferiu a sede da vila Conceição de Cruzeiro (que estava em Embaú) para a povoação junto da Estação de Cruzeiro que, nesse mesmo decreto, é renomeada Vila Novaes.
O decreto foi revertido pela Lei Estadual n.º 45, de 18.07.1892 e a Vila Novaes volta a denominar-se Conceição do Cruzeiro, e a Estação de Cruzeiro retorna à categoria de distrito.
Nesse ínterim, em 13.08.1898 falece Manuel Freitas Novaes em sua fazenda [7]. Figura de temperamento forte e controvertido, não chegaria a ver sua cidade definitivamente elevada a município. Isso ocorreria pela Lei Estadual n.º 789, de 02.10.1901 que novamente transfere a sede do município para o distrito Estação do Cruzeiro, elevando-o à categoria de município com essa denominação. A lei estadual nº 1038 de 19.12.1906 o eleva a condição de cidade com o nome (definitivo) de Cruzeiro.
A antiga sede da fazenda aloja hoje o Museu Major Novaes.
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NOTAS E INFORMAÇÕES – ESTAÇÃO CRUZEIRO
[3] fonte: Prefeitura de Cruzeiro https://www.cruzeiro.sp.gov.br/a-cidade/
[4] fonte: IBGE https://cidades.ibge.gov.br/brasil/sp/cruzeiro/historico
[5] Pela norma dos Correios, uma agencia seria sempre criada em estações construídas em locais pouco povoados, caso da Estação Cruzeiro que era distante da então sede do município. Nesses casos, a agencia era temporiamente subordinada ao Correio Central do RJ. Eu a cataloguei em Resende por ser este o município fluminense geograficamente mais próximo.
A transferência de subordinação a SP depreende-se de nota de 15.12.1882 no Correio Paulistano (SP) com a substituição de agente do correio, ambos cidadãos de Cruzeiro.
[6] https://pt.wikipedia.org/wiki/Estrada_de_Ferro_Minas_e_Rio
Vale dizer que o terreno para a construção da estação estava em terras do Major Novaes. O tema foi a julgamento e a decisão foi favorável à ferrovia, por se tratar originalmente de uma sesmaria.
[7] Major Novaes, nascido em Queluz em 28 de Abril de 1829
ESTAÇÃO DA CACHOEIRA
Nota preliminar
A pesquisa por informações neste local foi penosa pela existência no estado de S. Paulo de outros locais homônimos, e contemporâneos, com os quais os dados frequentemente se confundem.
Segundo o IBGE, o município de Santo Antonio da Cachoeira foi criado em 1859 na região de Atibaia (SP) e renomeado Piracaia em 1906. Teve agencia postal criada em 1873. A maioria dos carimbos “Cachoeira” ou “S.A. da Cachoeira” é desse local (verbete Cachoeira, SP no trabalho de R. Koester). No local, a Estação da Cachoeira foi inaugurada em 1872 pela Cia. Paulista de EF entre Jundiaí e Campinas (atual município de Vinhedo).
Na região de Lorena, segundo o IBGE, a Freguesia foi criada com a denominação de Santo Antonio da Bocaína, pela Lei Provincial n.º 37, de 29.03.1876, subordinada ao município de Lorena. Segue informando a elevação à Vila com o mesmo nome, com sede na antiga povoação de Santo Antonio da Cachoeira. Em 1895 é elevada à cidade de Bocaina, nome alterado para Cachoeira em 1915.
De fato, essa duplicidade de nomes preocupava também os Correios, tanto que a Administração dos Correios de SP publicou em 26.06.1875 uma nota nos jornais “rogando aos interessados que, devido a essas idênticas denominações, enderecem de modo ‘claro e distinto’ para evitar dúvidas quanto à direcção” [8].
Há também a antiga Cachoeira na Bahia, de onde provém o conhecido carimbo de letras CACH. (ver R.K.)
Para ajudar na leitura da rocambolesca criação da agencia do correio em Cachoeira, faço um índice dos parágrafos a seguir.
Índice dos parágrafos:
- As origens da povoação de Cachoeira (1780)
- As estradas de ferro (1875)
- O pontilhão ferroviário (1875-1877)
- A estação provisória de Cachoeira e sua agencia de divisa (6.08.1875)
- A agencia do correio na freguesia de Santo Antonio da Cachoeira. Criada em março de 1877.
- Por determinação do Correio Geral, a agencia é suprimida em 01.05.1877 “por já existir agencia subordinada à corte”
- A inauguração oficial da nova estação e da conexão entre as ferrovias, permitindo ligação ferroviaria entre as capitais (8 de julho de 1877)
- Comentários finais sobre a agencia e a ferrovia.
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- As origens da povoação de Cachoeira (1780)
Fig. 1 – Mapa Wikimapia com anotações do autor
O Arraial do Porto da Caxoeira nasceu às margens do rio Paraíba em torno de uma capela em homenagem ao Senhor Bom Jesus da Cana Verde, no ano de 1780 [9]. Habitado por pescadores, tornou-se ponto de passagem da Estrada Real, cujo traçado mapa acima registra em vermelho o seu traçado, que cruzava também Embaú, primeira sede do vizinho município de Cruzeiro depois realocada para a Fazenda Boa Vista, atual sede do muncipio (imagem).
O povoado se expandiria para a margem direita do rio ficando conhecido por Santo Antonio da Cachoeira, elevado a freguesia em 29.03.1876 como Santo Antonio da Bocaina e subordinado ao município de Lorena (como vmos acima na introdução)
2. As Estradas de Ferro (1875-1877)
Fig.2 – mapa Speltz de 1885 com anotações do editor
O Ramal S. Paulo da ferrovia D. Pedro II passou para a margem esquerda do Paraíba no trecho em Lavrinhas. Em julho de 1875 ele chegou a Cachoeira, local onde cruzaria o rio em 1877 para a margem direita na povoação de Santo Antonio da Cachoeira para a conexão com a EF do Norte vinda de S. Paulo.
A Estrada de Ferro do Norte foi construída pela Cia S.Paulo e Rio de Janeiro criada em 1869 por fazendeiros do Vale do Paraíba para ligar a capital paulista à Cachoeira. O primeiro trecho foi inaugurado em 1875 e a estação terminal em Cachoeira foi inaugurada oficialmente em 8.07.1877 (ver Fig.2).
Na época, essa EF utilizou a bitola métrica por haver incentivo fiscal federal a seu uso. Assim, por muito tempo houve necessidade de baldeação em Cachoeira pois a EFDPII usava a bitola larga. A unificação de bitola ocorreu na década de 1890, quando a Estrada de Ferro Central do Brasil a adquiriu e incorporou, com o objetivo de alargar a bitola e unificar as linhas. O primeiro trecho, entre Cachoeira e Taubaté, ficou pronto em 1901, e a ferrovia foi finalizada em 1908.
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3. O pontilhão ferroviário, ou ponte Silvio Vilas Boas
O último trecho do Ramal de S.Paulo, referido por 6ª légua pela empresa, iniciava-se na foz do rio Embaú no rio Paraíba e seguia pela margem esquerda até Santo Antonio da Cachoeira. O contrato do trecho foi assinado em 4 de abril de 1873 [10]. Entretanto, a obra do pontilhão atrasou, como se pode constatar na nova licitação em 02.04.1874 para uma “ponte provisória de madeira” pela diretoria da EF D.P. II [11].
Essa ponte permitiria a passagem de pedestres e cargas para o povoado, o que era imprescindível pois lá não havia uma ponte com estrutura que permitisse tráfego comercial entre as margens. Uma ponte rodoviária em arcos, conhecida por Ponte Agostinho Ramos, só seria inaugurada em 24 de abril de 1891 [12].
Para que os trilhos cruzassem o rio, teve-se que aguardar até 1877 o término da obra do pontilhão definitivo.
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4. A estação provisória de Cachoeira (1875-1877)
Decidiu-se então construir ainda na margem esquerda uma “estação provisória” inaugurada em 20.07.1875 [13], enquanto se aguardava o término da obra do pontilhão, a construção da nova estação no centro do povoado e a chegada da Linha do Norte paulista, prevista para 1877.
A agencia postal em 6 de agosto de 1875
A estação, terminal da EFDP II, tornou-se um importante nó logístico no roteiro de malas entre a Corte e a Provincia de S.Paulo, exigindo a pronta instalação de uma agência postal. Esta foi mesmo criada poucos dias após a construção da estação. A data consta de uma nota no diário O Globo em sua edição de 6 de agosto de 1875.
Se ainda restassem dúvidas sobre a subordinação da agencia, a nota de 1/08/1876 do Correio Paulistano não deixa dúvidas sobre a subordinação ao Rio de Janeiro.
Sabemos ainda por uma nota publicada pela ACSP no Correio Paulistano em 20.08.1875 que uma linha de correio foi aprovada pela Diretoria Geral dos Correios entre Taubaté e a estação de Cachoeira “pela linha de trolys” [14].
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5. A agencia postal na povoação de Santo Antonio da Cachoeira (8/03/1877)
O nome Santo Antono da
Meus comentários sobre a nota
- Cachoeira (norte) tem essa grafia para se diferenciar do homônimo paulista na região de Atibaia citado na abertura deste bloco.
- Uma agencia foi criada no povoado em março de 1877 com nomeação de um agente interino. Vale lembrar o povoado havia sido elevado a freguesia pela Lei Provincial n.º 37 de 29.03.1876, subordinado ao município de Lorena.
- Essa agência ficou subordinada à ACSP – Administração dos Correios de SP
- O agente (interino, por que seria?) receberia o equipamento postal.
É esta informação de criação de agencia a causa da errônea informação dessa data como a de criação da agencia em Cachoeira. Para deixar claro, a agencia poderia ser catalogada por colecionadores de S.Paulo, já que existiu brevemente, embora não instalada.
6. Suprimida a agencia em Santo Antonio da Cachoeira em 1º/05/1877
Meus Comentários sobre esse texto tão mal redigido:
- Desta vez, o local é bem definido: Santo Antonio da Cachoeira, entroncamento ferroviario ao Norte da Provincia.
- No primeiro parágrafo o agente do correio é informado da supressão da agencia por ordem do DGC, já que outra agencia subordinada à Corte já existia no local.
- O segundo parágrafo é endereçado à (agencia da) Estação Cachoeira, comunicando-a da supressão da agencia no povoado e que em decorrência a troca de malas passaria a ser feita ali.
- O terceiro parágrafo simplesmente informa a sede do município das decisões.
Minha conclusão:
Fica evidente que a agencia criada na freguesia pela administração paulista em março de 1877 foi vetada pelo Correio Central, já que havia uma agencia no local a ele subordinada e que funcionava na estação desde 6 de agosto de 1875. A agencia na freguesia foi suprimida e a operação continuou na estação.
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7. A inauguração da linha férrea e da estação (8.07.1877)
A imagem acima foi recortada de extensa matéria publicada na edição de 11.07.1877 do Jornal do Commercio (RJ) referente à viagem da Corte a S. Paulo em 8 de julho de 1877 para a inauguração no dia 08.07 da EF S.Paulo e Rio de Janeiro com a presença do Conde d’Eu representando o Imperador. Totalmente sobre trilhos, com baldeação na estação de Cachoeira devido à diferença de bitolas entre as ferrovias.
Na matéria fica subentendida a inauguração do pontilhão ferroviário sobre o rio Paraíba e da estação definitiva no centro de Cachoeira – cujas imagens atuais apresento a seguir
8. Comentários finais sobre a agencia e a ferrovia.
Sobre a ferrovia
Entretanto, a diferença de bitolas entre as duas linhas exigia demorada e dispendiosa baldeação, o que levou o governo republicano a emitir em 30 de agosto de 1890 o Decreto 701 encampando aquela ferrovia e incorporando-a à EF Central do Brasil. Entre 1901 e 1908 a Central retificou trechos e alargou a bitola da antiga ferrovia, finalmente permitindo o tráfego mais rápido e econômico entre as capitais.
Sobre a agencia de divisa Cachoeira
Recapitulando, sabemos que a agencia postal que havia sido criada em 1875 na estação provisória
de cachoeira foi realocada para o novo predio definitivo da estação inaugurado em 11 de julho de 1877. A agencia de fato continuava subordinada à DR-RJ como se comprova na nota ao lado publicada em 17 de outubro de 1877 no O Estado de S.Paulo cujo texto não deixa dúvidas: “A agencia do correio de Santo Antonio da Cachoeira, na estação da linha ferrea do Norte desta provincia pertence ao Rio de Janeiro (…)”.
Resta-nos agora o desafio maior de estabelecer a data em que foi alterada sua subordinação do Rio de Janeiro para S.Paulo.
O GP 1880 tem um anexo “A” datado de 1878 intitulado “Nomenclatura Corographica do Imperio do Brasil”. Neste, o verbete Cachoeira (Estação da Cachoeira) aparece ainda no Rio de Janeiro, como se vê na imagem.
No entanto, no corpo do GP, datado de 1880, ele aparece em S.Paulo no verbete “Estação da Cachoeira”. Esta foi a data que adotei para a transferência de subordinação e fim do status de agencia de divisa.
N.A.: Vale dizer que o GP perde um pouco de confiabilidade ao apresentar vários erros como por exemplo se vê nos verbetes:
-
- Cachoeira, Rio de Janeiro – S. José do Parahyba (esse é o antigo nome de S. Jose dos Campos, longe de estar no RJ)
- Estação de Cuiambuca (nº330) que está indicada como RJ mas é na verdade em Pernambuco.
Quanto a carimbos, não os conheço nesse período e se existirem devem ser raros pois como vimos essa agencia não ficou por muito tempo subordinada ao RJ. RK em seu trabalho os registra somente a partir de 1884 e mesmo assim do Correio Ambulante, que estão apresentados no menu ferroviário.
Para os saudosistas, uma imagem de 2026 do Google Maps nos mostra uma tabuletinha Cachoeira Paulista sobre as ruínas da outrora portentosa estação.
NOTAS E INFORMAÇÕES DA CACHOEIRA
[8] nota no Correio Paulistano de 26.06.1875 sobre as “idênticas denominações” dando como exemplo as localidades objeto deste trabalho
[9] Origens da povoação: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/sp/cachoeira-paulista/historico
[10] Sobre a construção do último trecho e do pontilhão. O texto na imagem é um extrato de extensa matéria publicada no Jornal do Commercio RJ na pg.2 da ed. de 20.07.1875. Nesse texto, o empreiteiro relembra a história e faz reivindicações ao Ministério da Agricultura e Obras Públicas sobre as pretensas injustiças que teria sofrido nesse processo. Também deixa claro que a obra ainda não estava pronta nessa data (a mesma na qual foi inaugurada a estação provisória).
[11] Para corroborar sua informação, temos uma nota publicada no mesmo Jornal do Commercio, datada de 02.04.1874, ou seja, um ano após a assinatura do contrato, informando que “não tendo sido aceitas as propostas para a construção da ponte provisória de madeira” pede novas propostas para a conclusão da ponte em 4 meses”.
Com isso, sabemos que seria uma ponte provisória de madeira a que foi encontrada com a chegada dos trilhos à margem do rio. Entendo que estaria pronta a infraestrutura com os pegões em posição (pilares dentro do rio que suportam a estrutura) sobre os quais seriam apoiados os pranchões de madeira que permitiriam o trânsito sobre o rio. Faltaria então a estrutura metálica em treliça que seria instalada até 1877 quando a linha cruzaria o rio até a nova estação onde se faria a conexão com a Linha paulista.
Nota: Um curioso vídeo descrevendo o pontilhão através uma pintura da época, pode ser vista no YouTube em https://www.youtube.com/watch?v=vEhOIRQCftM
[12] data de inauguração da ponte em arcos Agostinho Ramos https://cachoeirapaulista.tur.br/ponte-agostinho-ramos/
[13] nota no Jornal do Commercio (RJ), edição de 20.07.1875 comentando a abertura ao tráfego da EF do Rio a Cachoeira através de uma “estação provisória”.
[13A] Notas na seção de noticiário do jornal A Provincia de S. Paulo relatam a descoberta de centenas de objetos postais descartados sob o assoalho. Segue imagem da edição de 18.09.1877
[14] Nota no Correio Paulistano de 20.08.1875, informando o estabelecimento de correio diário à 2a.Secção da linha do Norte entre Taubaté e a estação da Cachoeira. Como nesse trecho ainda não havia trilhos, “a linha de trolys” seria feita por charretes ou carroças.
Próximos Capitulos
- Capitulo 1 – MG-RJ no ramal de Porto Novo
- Capitulo 2 – MG-RJ no rio Paraibuna
- Capitulo 3 – MG-RJ na EF Leopoldina em MG
- Capitulo 4 – SP-RJ no Ramal de S.Paulo da EFDPII
- Capitulo 5 – SP-RJ na EF RESENDE A ARÊAS
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