Correio Ferroviário: conceitos

O CORREIO FERROVIÁRIO NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

Indice:
Capítulo I – Introdução
Capitulo II – Correio Ambulante
Capitulo III – Agencias Ferroviárias

 

CAPÍTULO I – INTRODUÇÃO

Há uma tendência a agrupar em “correio ferroviário” tanto os carimbos utilizados pelo correio ambulante embarcado em trens como as agências postais estabelecidas em estações ferroviárias. Neste trabalho, porém, adotarei entre os dois tipos uma distinção que, resumidamente, descrevo abaixo:

  • O Correio Ambulante funcionava dentro dos trens com pessoal próprio e hierarquicamente independente da estrutura organizacional das agencias postais fixas. Seus carimbos traziam apenas o nome ou o código da linha. Não conheço o documento oficial de instituição do serviço, mas tudo leva a crer ter sido instituído em 1875 na E F D. Pedro II.
  • A Agência Ferroviária é de fato uma agencia postal regular, ou seja, responde à mesma estrutura das demais agencias fixas. Sua particularidade é funcionar dentro ou próxima a estações ferroviárias e mencionar “estação” em seus carimbos, o que de certa forma a diferencia e a torna colecionável. A primeira agência ferroviária pode ser considerada a de Queimados na E F D. Pedro II, criada em 1863.

Numa visão conservadora, penso que “Correio Ferroviário” se aplica naturalmente ao serviço ambulante, onde a correspondência é manuseada num trem em movimento e não numa agencia postal fixa. Creio ser assim nos países precursores no exterior. No Brasil no entanto adotou-se o costume de adicionar o qualitativo “estação” nos carimbos de agencia fixa localizadas nas estações – o que abriu campo para uma nova modalidade de colecionamento.

AS LINHAS FERROVIÁRIAS

FER 1. Linhas e Ramais RJ

O sistema de classificação que adotei está baseado nas linhas ferroviárias. O mapa acima mostra as principais linhas e ramais do Estado do Rio. Ao não encontrar na literatura uma codificação oficial, tomei a liberdade de criar uma numeração própria baseada em critérios geográficos e cronológicos. As 58 linhas que identifiquei estão tabuladas abaixo.

Sumário das linhas e ramais ferroviários no estado do Rio de Janeiro

 


CAPÍTULO II – O CORREIO AMBULANTE

Definições e História

O termo ambulante no jargão dos serviços postais é empregado para o manuseio de correspondência em veículos de transporte, particularmente em trens de passageiros. As primeiras agencias móveis foram instaladas na Grã-Bretanha em 1838 no serviço entre Londres e Birmingham. Na França em 1845 entre Paris e Rouen, na Itália em 1855 na rota Turim-Gênova e nos EUA em 1862 [3] (fonte Wikipedia).

No Brasil, o Correio Ambulante (Ferroviário) funcionava dentro dos trens muitas vezes em vagões especialmente adaptados. Ele utilizou carimbos próprios com identificação das linhas a que serviam e não de localidades, com organização hierárquica independente das agências postais fixas. O serviço é mencionado a partir de 1875, sendo no início subordinado à 3ª Secção do Correio Central como se vê na imagem do Almanak Laemmert para 1876 [1] que o descreve com cinco funcionários.

A primeira menção oficial está no Regulamento dos Correios de 1888 [2] que o realoca na 4a. Secção. O primeiro da Republica, em 1894, traz a novidade de uma organização em oito seções e o posiciona justamente na 8ª. Daí para frente, várias modificações: o decreto de 1909 realoca o serviço na 4ª Secção, posição mantida nos Regulamentos de 1921 e no de 1931. Já o decreto de 1933, o último que descreve atribuições de estrutura, volta a coloca-lo na 8ª Secção.

O Serviço Ambulante Noturno

Serviço implementado pela Portaria 76 de 8 de fevereiro de 1892 [4] que descreve os princípios de funcionamento. Tenho uma imagem de carimbo noturno apresentada abaixo, numero AMB 67 linha 11a.

A Nomenclatura Dos Trens e os códigos de linha de Correio Ambulante

Os chamados trens “S” (de Serra) circulavam pela Linha do Centro, do Rio até Três Rios, e entrando por Minas Gerais. Os trens “SP” circulavam pelo Ramal São Paulo até a cidade paulista de Cachoeira. Estes eram os trechos com maior tráfego da ferrovia. Seguindo a mesma lógica, funcionavam os trens SU nos ramais de subúrbio, os trens SR no ramal de Porto Novo e os trens MA no ramal dos Macacos.

A partir de 1910, os Correios passam a adotar códigos para identificar as linhas de correio ambulante, com combinações de letra e números tais como EMNPA2, etc. (veja tabela mais abaixo no título “carimbos ida e volta”). Na verdade, nunca encontrei essas “tabelas de código” em documentação dos correios da época.

Continuarei pesquisando. Se alguém souber, peço o favor de comunicar.

 


Notas e informações:

[1] Almanaque Laemmert para 1876

No ano de sua instituição, 1875, o quadro de funcionários do Correio Ambulante era composto por um 3º Oficial e quatro praticantes (espécie de agente postal embarcado). Fac-simile abaixo:

Correio Ambulante (Almanaque Laemmert 1876)

Para dar uma ideia do desenvolvimento desse serviço, ao final do Império, em 1889, o quadro de funcionários desse departamento tinha crescido e estava dividido em três turmas, cada uma com 11 praticantes.

[2] DECRETO Nº 9.912-A, DE 26 DE MARÇO DE 1888 (grifos do autor):

  “Art. 61. A conduccão terrestre das malas far-se-ha:
    1º Por estafetas a pé ou a cavallo, percorrendo em cada viagem de ida e volta distancias razoaveis; para o que as linhas mais extensas serão divididas em secções;
    2º Em carros das estradas de ferro, por praticantes do Correio ou por quaesquer outros individuos para este fim assalariados;
    3º Nos Correios ambulantes, isto é, nos Correios que funccionam em carros das estradas de ferro, emquanto os trens se acham em movimento.
    Art. 62. O serviço da conducção terrestre das malas, por estafetas em qualquer linha, só deixará de ser feito por arrematação, quando este meio não fôr o mais economico.
    Art. 63. Os estafetas serão de comportamento afiançado; deverão saber ler e escrever; usarão de uniforme pelo qual sejam conhecidos; poderão andar armados; receberão das autoridades dos logares por onde passarem todo o auxilio de que carecerem, mesmo o pecuniario por conta do Correio, para o desempenho de seus deveres; não poderão por motivo algum ser embaraçados no seu transito; e, quando commetterem crime pelo qual devam ser presos, a autoridade que decretar a prisão, si no logar não houver estação postal, providenciará com urgencia para que as malas sigam com segurança e presteza até á agencia mais proxima, que do mesmo modo deverá providenciar para que ellas cheguem ao seu destino.
    Art. 64. Os conductores de malas, em carros de estradas de ferro, usarão tambem uniforme, gozarão das mesmas immunidades que os estafetas, occuparão em carros de 2ª classe a capacidade necessaria para accommodação das malas, serão auxiliados para o prompto embarque dellas pelo pessoal das estradas de ferro, e ser-lhes-ha concedido o espaço de tempo indispensavel para entregal-as e recebel-as em cada estação.”
 Art. 111. A’ 4ª secção incumbe: o preparo e expedição das malas para o interior do paiz e para o exterior; o serviço do correio ambulante da Estrada de Ferro D. Pedro II e de qualquer outro que dependa do Correio do Rio de Janeiro; a estatistica diaria das malas e das correspondencias expedidas.
[3] Um exemplo: o serviço ambulante nos Estados Unidos

O serviço é conhecido e colecionado nos EUA como RPO – Railway Post Office e no Reino Unido por TPO – Travelling Post Office. As imagens abaixo mostram uma peça comemorativa dos 70 anos do primeiro RPO (em 1862) e um envelope do último dia de RPO entre NY e Washington em junho de 1977.

First_RPO By Unknown author – Postcard, Public Domain

NY_and_Washington_last_day_RPO_service_June_30,_1977

É também admirável a padronização dos carimbos ambulantes naquele país. Abaixo um conjunto extraído da internet.

[15] Serviço noturno:

 

 

A grande maioria da correspondência franqueada pelo correio ambulante consistia nos práticos Bilhetes Postais ou Cartas-Bilhete pré-franqueados. Os primeiros se assemelhavam aos atuais cartões postais e as últimas possuíam 4 páginas que, com dobra e colagem, permitiam confidencialidade de conteúdo e eram semelhantes aos aerogramas. Eles foram criados pelos decretos 7695 de 28 de abril de 1880 (valores de 50 e 80 Rs) e o 7841 de 6 de outubro de 1880 (20 Rs).

 


Carros de Correio:

Vagões especiais (chamados ‘carros’) para o serviço ambulante foram reformados nas oficinas da EFCB sobre chassis de vagões importados (foto do Arquivo Nacional RJ). Os Relatórios Postais de 1886 e 1887 descrevem alguns desses modelos:
– no trecho Três Rios a Porto Novo, carros das séries “S” e “U” (não confundir com o chamado trem “S”, este se referindo ao nome da linha);
– no trecho para Santa Cruz, carros séries “E” e “U”;
– no trem S3, carros série “U”;
– na Leopoldina até São Geraldo utiliza-se um compartimento dos vagões de 1ª classe;
– os trens S1, S2, SP1 e SP2 – os de maior demanda – usam carros série “R”;
Descrição de um desses carros da série “S”: carro com um só compartimento e gabinetes reservados, com madeira do país e pequenas plataformas nas cabeceiras. Peso 7540 kg.
Da série “R”: carros com dois compartimentos e gabinetes reservados sobre estrados e truck de madeira (origem EUA, peso 13863kg).
Em 1906, operavam 16 carros da série “R” na EFCB, além de outros menores.

 

Cobertura do serviço:

Em 1887, abrangia a EF Dom Pedro II e seus principais ramais: Itabira (hoje Itabirito, MG), Cachoeira, Porto Novo do Cunha, EF Santa Isabel do Rio Preto. Já em 1900, o serviço cobria praticamente todo o território do Estado. Nos finais de linha, era comum haver o pernoite de funcionários, aguardando o trem de retorno no dia seguinte (existem carimbos ‘pernoite’).

TABELA DE TIPOS DE CARIMBOuma planilha completa dos tipos de carimbo está no menu ao lado em “Tabela Completa de Ambulantes”.


CAPÍTULO III – AS AGENCIAS FERROVIÁRIAS

São as agencias instaladas dentro de estações ferroviárias, ou próximas a elas, servindo às estações e às localidades que se desenvolveram à sua volta. Tinham subordinação à mesma estrutura hierárquica das agências urbanas tradicionais. A primeira agência ferroviária que tenho notícia foi criada em 1859 na estação de Belem inaugurada em novembro de 1858 na EFDP II (tabela agencias do Imperio de 1885).

Havia uma instrução da Diretoria dos Correios sugerindo “na medida do possível” a criação de agencias postais em estações ferroviárias recém-abertas.

Critérios de classificação de uma agencia ferroviária

Não existe um critério preciso na definição de uma determinada agência como ferroviária. Só há uma certeza: ela precisa estar em localidade servida por uma linha ferroviária.

Na falta dessa informação, proponho alguns indicadores que determinam sua classificação em ordem de relevância tabela abaixo apresenta . Esses tipos qualificarão as agencias ao longo deste trabalho.

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Exemplos de Indicador tipo A

O indicador tipo A parece ser determinante, tanto que é adotado pelos filatelistas como o critério básico para inclusão em suas coleções. No entanto, são conhecidas algumas exceções grafadas com essas legendas mas que nem mesmo estavam no traçado de ferrovia; suas malas seguiam ao destino por estafetas a partir de uma estação próxima. Cada uma delas tem a sua particularidade e as apresentamos no anexo I.

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Indicador tipo B, exemplos

O indicador B implica alta probabilidade de se encontrar algum dia um carimbo com essa indicação. Nesse caso, a agencia será “promovida” ao tipo A.

 Estação da Saudade criada “na estação” em 19/09/1883 no ramal Bananalense, nota oficial na Gazeta de Noticias de 21/09

Estação Vargem Alegre criada “na estação” em 01/03/1871 no ramal da Cachoeira, nota oficial no Diario do Rio de Janeiro em 28/02

Estação do Iguassu, criada “na estação” na EF Rio d’Ouro, nota no Boletim Postal de 5 agosto de 1890 (lembrando que, conforme o mesmo BP, a agencia havia sido criada em 21.07

Macacos, agencia criada “na estação” (EFDPII) em nota no Correio Mercantil do RJ edição de 2/11/1861. Este é um caso de nota não-oficial, por não conter assinatura. Mas adotei como fato comprovador de inclusão.

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Indicador tipo C

Como adiantei acima, trata-se de observar nos verbetes de guia postal a descrição do local como estação. Exemplos:

Estiva, est.-ag. – Guia Postal de 1906

Belfort Roxo, est. – Guia Postal de 1940

Vale ainda salientar a indicação contida na data de criação da agencia. Uma análise estatística dos dados revela ser este um indicador bastante preciso. Há dezenas de casos nos quais a agencia foi criada em menos de um ano após a inauguração da estação. Isso faz sentido pois, como já dissemos, havia a recomendação da DGC para se criar agencias nas novas estações ‘sempre que possível’. Os trilhos desbravaram o território, trazendo progresso na logística e nas comunicações a pequenos povoados no interior.


TABELA DAS AGENCIAS TIPO A (revisada em set/2020)

A tabela abaixo apresenta em ordem alfabética as 107 agencias que apresentam as características do tipo A. Sempre que a estação tiver o mesmo nome da agencia, está indicado “idem”. O numero da estação refere-se à ferrovia. Por exemplo, Aguas Claras 30.06 é 6a. estação da ferrovia nº 36.


Anexo I – as exceções de indicação em algumas agencias

Peço desculpas ao leitor pelo longo anexo, mas ele traz uma informação importante ao relativizar um critério aparentemente definitivo de classificação. Seguem imagens de quatro exceções encontradas, onde se encontra a legenda “estação” em agencias situadas em locais não servidos por linhas ferroviárias.

Exemplo 1 – Cachoeiros de Macaé : como se lê no detalhado GP de 1906 as malas da agencia Cachoeiros de Macaé (povoado) em Macaé (ERJ 605) seguiam pela estação de Rocha Leão e “dahi ao destino por estafeta”. A estação ficava a 18 km no vizinho município de Casimiro de Abreu. Vale ressaltar que essa estação também possuía agencia própria desde 1888.

       GP 1906   

Exemplo 2 – Córrego do Prata: lê-se aqui que as malas da agencia Córrego do Prata (povoado), no municipio do Carmo (ERJ 361) seguiam pela estação de Bacellar, via cidade do Carmo, também a 18 km.

      GP 1906

Exemplo 3 – Monte Serrat: pela sua peculiaridade, este caso merece um preâmbulo. A EF D. Pedro II, após Três Rios, segue em direção norte até cruzar o rio Paraibuna, que é a divisa das províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais. A partir daí, seu traçado sobe o rio quase sempre pela margem mineira. Várias estações nesse trecho tiveram agências no seu prédio e estas, por algum tempo, respondendo à DR-RJ. Entre elas, a agencia de Parahybuna, na estação de mesmo nome, criada em 1875. No entanto, o desenvolvimento da freguesia de Monte Serrat, na margem oposta, em território fluminense, acabou por justificar em 1886 a transferência da agencia para o seu território.

Aqui começa nosso exemplo: as malas da “nova” agencia Monte Serrat continuavam seguindo pela estação de Paraibuna, na outra margem, e entregues por estafeta, como se vê no GP 1906. Entretanto ela manteria em seus carimbos a legenda EST. até 1928, a meu ver indevidamente. Note o carimbo de 1901 trazendo (EST.) e o registro do GP 1906 como freguesia.

      GP 1906  

Exemplo 4 – Rio Preto: vale também um preâmbulo: a E F União Valenciana foi autorizada em 1866 a fazer a ligação de Valença à E F D. Pedro II, o que aconteceu em 1871. O governo em 1877 também aprovou seu prolongamento até Rio Preto (MG) onde chegou em 1880. Esta cidade já possuía uma agencia desde 1846, conforme nota na Gazeta do Imperio (10/1846) que nos revela como era ambígua na época a definição das divisas provinciais (a nota reza “nos limites”). De fato, os GPs de 1856 e 1906 a posicionam em Minas. Por outro lado, a EF Valenciana foi toda construída pela margem fluminense do rio Preto. Assim, como explicar o GP 1906 que reza “União Valenciana ao destino”? O destino está do outro lado do rio, o próprio GP deixa isso claro. Por que uma agencia mineira usaria um carimbo com legenda EST. RIO PRETO? Há quem advogue a existência de uma segunda agencia na estação (no caso, no RJ), porém não existe esse registro.

      GP 1906

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Conclusões: não ficam claros os motivos pelos quais existiram essas exceções. Mas a esse respeito compartilho algumas ideias que me ocorreram ao longo deste estudo.

Começo por analisar as dezenas de agencias que de fato estavam localizadas em estações e que usaram essa distinção em seus carimbos. Por quê? Talvez por ser um fator de desambiguação de localidade, já que na época tanto as ferrovias quanto – e principalmente – os correios não foram muito eficientes em garantir a unicidade dos endereços havendo sempre várias localidades com mesmo nome no território nacional (os filatelistas que o digam). Assim, estação poderia ser um fator diferenciador.

Essa tese tem respaldo na análise do endereçamento de cartas da época – é comum que seja adicionado algo como “na linha de tal” ou “estação tal” no endereço de destino. Não é esse o caso, por exemplo, dos EUA, um país com similar extensão territorial onde não encontrei esse tipo de carimbo.  De qualquer forma, só esse fato não explicaria nossas exceções. Talvez o status de se mostrar servida por ferrovia fosse também um motivador.


A apresentação dos carimbos ambulantes e de agencias ferroviárias seguem em submenus classificados pelo numero da ferrovia no qual eles foram utilizados.


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